domingo, 12 de outubro de 2008

Formas mágicas sobre a areia movediça

Hoje, nessa tarde ímpar, eu vejo como se não visse:
Uma meia-lua exasperada e negra com a sua anca voltada para baixo;
Uma boca cintilante no canto esquerdo, carnuda vermelha ácida;
Fotos preto e branco de fumaças de cigarros;
Árvores de argila nos telhados das igrejas;
Formas recatadas de sado masoquistas brotando das gretas por todos os lados;
Ventiladores sujos assoprando a miséria para todos os cantos;
Americanos rips transando com índios peruanos sob uma bandeira da coca-cola;
Representantes do partido operário fumando havana como se fosse a ultima migalha da greve;
Uma criança desnutrida vomitando onomatopéias;
Um protestante cego transando com um travesti careca;
Um milionário que tem como principal prazer quebrar braços de bebes recém nascidos;
Suicidas invadindo os lares de família a procura de uma banheira para consumar a própria morte;
Mulheres loiras que teimam em deixar crescer os pêlos pubianos até que não lhes sirvam mais as suas roupas justas;
Pêlos crescendo nos seios das virgens formando assim biquínis naturais;
Universitários puritanos organizando grupos de estudo para entender a sodomia;
Um lavrador explicando ao filho o que são corpos celestes;
A vigésima geração da família de Marx inaugurando mais uma multinacional;
Moab e Amon apontando o dedo para os meus pecados;
E os cadáveres dos anjos que foram estuprados na cidade incendiada Sodoma.

Segunda carta: de Laura à Marcela



My little darling, por que me mandas estas cartas dizendo coisas que eu nunca entendo? E estes tais segredos que dizes, quando trocamos e quais são? Não me lembro de ter lhe contado nenhum segredo. E de mais, por que me dizes de uma certa noite em que tocou as minhas partes intimas? Sabe amiga, tu sabes mais do que ninguém que meu hímen ainda está intacto, não sabes? Olha, eu não sei por que falas assim do Roberto. Ele é tão gentil conosco, é um amigo de verdade, apesar de ás vezes parecer um tanto infantil a me enche a cuca dizendo que me ama e coisas do tipo. Eu sei que ele não me ama e também sei que ele adora esses jogos de sedução. Mas no final das contas é uma ótima pessoa, um bom ombro para chorar quando se está desiludida, um amigo fiel, aliás, até mais fiel do que você que já me faltou com a amizade uma vez.
Marcela, não me enchas mais com essas suas conversas corriqueiras. Não entendo do que falas. Ás vezes você me parece uma personagem do Bukowski. Você leva muito á sério esses assuntos libertinos. Devia pensar mais em outras coisas, coisas mais importantes. Qualquer dia destes, você pegará uma doença de algum destes garotos com quem anda por aí a cometer esses atos sujos. Sabia que tem uma amiga minha que pegou do namorado uma doença chamada sífilis? Dizem por aí que o Baudelaire morreu disto, de sífilis, e que lhe fora transmitida por uma de suas “flores do mal”.
Esta semana quando saia do meu trabalho conheci um rapaz chamado Hermes, como o da mitologia grega. É verdade que ele tem uma cara de ser meio sonso, e não rias da cara dele se acaso o encontrar na rua a meu lado. Ás vezes é meigo demais, mas é uma doçura aquele olhar ingênuo. Primeiro, pedi a ele que saíssemos de perto do escritório (não gosto que me vejam conversado com homens, pois dentro do escritório sou uma moça séria e recatada, não que também não seja isto quando estou na rua, mas lá preciso ser mais recatada ainda), depois pedi a ele que me levasse a algum lugar de que gostasse, e adivinha onde me levou? Numa sorveteria amiga, numa sorveteria. Veja só que romântico... Pena que ele não seja tão atirado quanto Roberto, pois se não fosse tão amiga dele certamente seriamos belos amantes. O problema de Roberto é que ele se transforma para conseguir o que quer, ou achas que eu acredito naquela pose dele de romântico?
Ah, my dear, ando me aprofundando na arte do romance. Às vezes me sinto como uma personagem dos livros de Castelo Branco, apaixonada perdidamente por um homem tolo, mas logo vejo o quão tolo é este homem e logo desisto de amá-lo. Até quando dar-me-ei a qualquer um?(repare na mesóclise que fiz em homenagem a Mariana)
Já estou cansada de procurar um tipo que me satisfaça em todos os aspectos. Às vezes penso em entregar a minha virgindade a qualquer um pulha que me aparecer na frente, mas logo desisto, pois se já aguardei até hoje... Sabe que o Roberto é um ótimo candidato. Ele é meu amigo e carinhoso como nenhum outro, apesar disto ser apenas uma casca que ele cria para conseguir penetrar aquela sua pica torta (sei disto porque ele me disse certo dia) em minha amada virgenzita.
Voltando a sua carta, amiga, o que queres dizer quando falas em uma certa noite em sentiu o gosto puro da minha... Não sei que noite foi esta, aliás, você me assusta quando diz estas bobagens. Acho mesmo que esta ficando louca, Marcela. Por isso acho melhor não nos encontrarmos. E se você quer saber, o Roberto ainda anda a me perseguir. Certo dia dei-lhe um beijo. Precisava ver a carinha de felicidade dele. Depois inventei uma briga para que ele não me enchesse com suas asneiras.
Acho mesmo o Roberto um tipo. Achas que convences qualquer uma com seu ar de semi-deus. E se ficou curiosa, amiga, já digo: não sei qual é o tamanho de seu passarinho. Não deixei que encostasse em mim, pois se deixasse, certamente ele iria querer mais do que simples beijos. Sabe, darling, às vezes acho que o amo, mas depois olho-o novamente e vejo aquele olhar sombrio de lobo querendo desvirginar mais uma pobre e indefesa ovelha e desisto de amá-lo.
Hoje irei sair com o Hermes. sei que estas a rir do nome dele, mas eu o acho muito provocante apesar daquele jeito de olhar. O olhar dele, amiga, mais parece de m desses cachorros que vivem pela rua a procura de um dono do que de um homem. Ah, você não sabe, no nosso primeiro beijo ele ficou passando a mão em meus cabelos, como um patético romântico que não sabe o que fazer com uma mulher, mas hei de me divertir com ele ainda. Não dessas diversões que certamente esta a pensar e que insinuas que faço em suas cartas. Sou pura mesmo. E nunca troquei confissões sórdidas com você. Às vezes você me parece a mesma adolescente que conheci no colégio a quatro anos atrás. Falando nisso, diga-me uma coisa: naquele tempo você já era esta pervertida que se tornou hoje?
Fico por aqui porque o Hermes já deve estar me esperando. Hoje vamos no cinema, amiga. O filme, não sei ao certo, mas certamente é um romântico porque o Hermes é um rapaz bem sentimental.
Adeus, amiga, não devemos nos encontrar, você não esta no seu juízo. Acho que o sexo anda a lhe fazer mal. Comece a gastar o seu tempo com coisas mais importante do que sexo, não esta lhe fazendo bem transar com qualquer um. Vai que um dia você caia nas mão de um tipo “Sade” e ele chicotei teu corpo todo até sangrar. Por isso tome cuidado minha doce e sórdida amiga. Vigia, que o mundo anda cheio de loucos.

E é como se minha cabeça pesasse oitenta quilos.........

Estar sóbrio é tão sem sentido que nem penso mais na sobriedade, o vinho me liberta e quero me libertar dos vermes putrefatos que abortam minha boca pela diabetes. Não quero mais me masturbar na noite fria nem transar com esses seus buracos desencontrados, Linda. Sou como as gotas quentes de chuva que Chopin, sem ser escandaloso, lançava sobre nossas cabeças.
E o vinho continua como nossos sórdidos desejos e eu vejo que cada beijo não é mais necessário nem o jovem solitário que cuspia fogo como uma ogiva opus 25.
Eu sou Eros, ele gritava, E eu sou um alto-falante-estéril, um perfeito miserável solfejando Schumann aos quatro quartos do castelo, o outro respondia. Eu sou as cordas do violoncelo e o gozo da nota que nunca alcançarei.

sábado, 27 de setembro de 2008

A evocação da Deusa

O copo de vinho, as cuecas pelo chão, a pia cheia de louça, o maçarão que aos poucos estraga, e um disco do Schumann na vitrola. A ponta do baseado no cinzeiro, muitas pontas de cigarro, os livros e as cartas mal escritas pelo chão, pelo calor da paixão... Tudo isso diz que ela não está.
Pedaço de solidão no cigarro aceso. Outra garrafa de vinho e alguns passos para virar o disco, “é melhor colocar aquele Mozart que ela tanto gostava”. Após alguns segundos a sinfonia invade o escuro do porão, outro pedaço de solidão... Um suspiro. A evocação da deusa. Silêncio. Dizendo que ela não está, e que não vai voltar.
Outro copo de vinho. Alguns passos até a estante e em um instante o livro do Gullar aberto na mão. Bate os olhos, e com aquela letra dela, a anotação: “é lindo”, ao lado do poema Madrugada. Tira o pigarro da garganta e começa a recitar:
Do fundo do meu quarto, do fundo
Do meu corpo
Clandestino... (as lágrimas já não o deixam ler)
Fecha o livro e pega o cigarro. Lembra de como ela tragava o cigarro, de como ela sorria quando exagerava no vinho... Mas agora ele olhava ao redor e lembrava-se de como tudo aconteceu. Lembrava do telefone tocando e alguém dizendo:
─ Sérgio, é você?
─ Sim.
─ Aconteceu uma coisa horrível com a Antonieta...
Ele ainda sentia o gosto dela na boca, ainda via Antonieta entrar no quarto com seu ar de litorânea, reclamando do trabalho, pedindo que ele colocasse algum disco. “Pode ser algum jazz. Não, melhor colocar aquele Schumann do violoncelo”, foi esse o disco que escutaram no dia anterior de sua morte. Ele passou três dias escutando este disco, até que a musica se tornasse o ar e não fizesse mais sentido. Fosse como o nada, um nada que cerrava os punhos aos poucos.
Outro cigarro. Queria mesmo era incendiar a Deus, trazer de volta sua deusa. Tentou evocar Satã para um pacto, mas ele não veio. Isolou-se no porão então. Resolveu esperar a morte. Não foi ao velório, só ficou lá no porão, imóvel. Caminhava até a vitrola, trocava o disco e só. Esperar a morte bastava, no escuro calabouço do palácio em que por um tempo foi feliz com Antonieta. Agora não restava nada que não o vinho, o cigarro, e a coleção de discos que ela deixou. Restava agora aguardar, ou se transformar em um vampiro.

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

A décima utopia:

Ao som da sétima sinfonia de Schubert


Dedicado a todos os mictórios públicos e privadas,
a todas as bonecas infláveis virgens e a todos os seguidores do Deus do sexo Grande Olho. Esta reportagem foi feita no ápice da revolução libertária comandada pelo profeta Grande Olho no ano de 2000 e é dedicada a todos os reprimidos sexualmente que aguardam ansiosamente o século XXX.

Daqui de cima o Grande Olho grita para a multidão que passa-meio-despercebida. “A vida, disse Grande Olho, deve ser esquecida, passemos agora a era do corpo liberto do sexo certo” a multidão então começou o piquete, primeiro o menino moreno acendeu o foguete, depois o menino negro mostrou o cassete e nem os cassetetes da policia foram capazes de fazer chover na grande festa-orgia-sado dos pupilos de Grande Olho. A moça loira cagou na cabeça do seu eterno e infiel marido após dar o rabo para uma fila interminável de coroas solitários, garotos virgens que gozavam tão rápido quanto um coelho, lésbicas desconfortadas que usavam cintos com cassetes rosas pendurados e um estranho senhor Elias que tinha o fetiche de ver mulheres estrangularem ratos com o ânus. Subjetivamente Grande Olho ordenava para que eles ficassem nus e se oferecessem aos primeiros que tivessem ereção, “quero toda a liberdade e prazer, dizia o grande mestre, quero corpo-liberto sexo-ereto vulva-molhada anus-sempudorpiedade, quero todo o gozo do mundo como minha oferenda”. E em um instante ingênuo/purodesonhosutópicos, vociferou a voz de Grande Olho: “Quero mortos todos os assexuados”. E os pássaros rosas desceram até o abismo onde se escondiam todos os brochas para cometerem a maior chacina já vista. Grande Olho sorria, cada vez que um pássaro rosa arrancava a tripa de um bosta brocha, de uma Leila geladeira, e após o primeiro monte de corpos, Grande olho ordenou aos pássaros que trouxessem a ele todos os olhos assassinados. (No calabouço do castelo havia uma sala onde só Grande Olho tinha acesso, lá era a sua coleção de olhos, havia todos os tipos de pregas, haviam até pregas de mulheres prenhes). Quando viram assassinados os assexuados os homens-de-bem correram para adentrar os anais da orgia. Menstruadas, as mulheres foram prejudicadas, mas não impedidas de proclamar o corpo liberto com o ânus aberto. Grande Olho não suportava mais tanta alegria, não se continha, gozava sem parar até que um ataquecardiaco levou-o para o inferno cristão dos reles mortais, e Deus ordenou a seu irmão Diabo que lhe serrasse o membro além de lhe tapar o Grande Olho que vive vagando cego pelo inferno com seus sonhos frustrados, mutilado, e preso pelas amarras da liberdade. Os seus seguidores morreram de covardia após a grande orgia liderada por Grande Olho e seus pássaros rosas assassinos de assexuados.

domingo, 17 de agosto de 2008

A uma certa Adélia

Ao som de “Pra dizer adeus”
com Maria Bethania e Edu Lobo

Querida, tenho caminhado a esmo. Não sei porque começo a te escrever nesta noite de inverno. O céu, Adélia, é um mar de ponta cabeça, e aos poucos vai desabando sobre nossas cabeças como se fossemos bonecos de bolo esquecidos após o fim do casamento. Ah, se você soubesse o que eu sinto quando ouço a Bethania dizer: “que o amor foi tanto e, no entanto eu queria dizer vem...”. É, Adélia, o amor foi tanto e, no entanto não durou o tempo que pensávamos naquelas noites quentes, de trepadas efêmeras e escaldantes.. O barco afundou e não deu para nos segurar, o barco afundou no céu como se fosse a pena que sentíamos um do outro. A pena de dizer a verdade e dizer adeus. Você ainda lembra como era bom? Tanta coisa ficou por dizer, tanta trepada ficou por trepar, até tantas lágrimas por derramar. Ah, eu que me cortei tanto, como se o nosso amor fosse uma foice e foi-se um dia o amor. Foi tanto, e, no entanto só sei dizer vem, eu só sei dizer... vem, que eu te quero tanto, vem...

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Ode a Leminski

Foi na sétima sinfonia que Beethoven descreveu o medo
Como se Deus fosse Leminski
E Bach nos mostrou a tristeza com seus violoncelos
Como se fosse Paulo o primeiro nome de Deus

e se dormir chapado fizesse sonhar com Paulo Leminski
Com seu bigode roxo como de um lutador russo
E se sonhássemos,
Será que acordaríamos com seu sotaque do sul?
Ontem tive a impressão de que Leminski quis falar comigo
Como se ele fosse Deus, ou um deus
E o Murilo Mendes outro
E o Gullar outro
Entre outros muitos seguidores do grande deus chamado Pessoa.

“Em La lucha de versos
Todas las armas son buenas”

As gotas de chuva de Curitiba
Inundavam as ruas e quebravam o silencio
Daqueles jovens ingratos que buscavam a ti
Que liam suas linhas tortas
Eu queria ser um poeta maldito
Bendito seja o teu nome, bandido
E todas as vezes que me lembro do teu grande bigode
Tenho certeza de que tu eras o pai dos irmãos Karamazov
E que tu eras o irmão bastardo que vivia no sul
Tentando tomar um jeito
Tomando uísque falsificado
Acabou tratando os assuntos com Deus
E teus 44
anos de vida e lucha
Musica
Poesia
Fariam falta se não tivessem acontecido
Como as orgias que Sade não fez
Como as coxas que Piva não provou
Como as fotos que Salgado não tirou
É, amigo, tu farias tanta falta
E sua lama na barba e o seu desmanchar-se em charme

“fazia tempo
Que eu não me sentia
Tão sentimental”
Pois é amigo
Pode ser um sinal
Aliás, sua “Lápide 1” é mais legal
“naquela época Curitiba era um mar de bigodes cercada de kimonos por todos os lados...”