O alvorecer é sórdido, mas serve para limpar a maquiagem. E ao ouvir o pássaro cantar o objeto chora. Dançando a velha canção do nada para espantar os abutres da calçada.
─Quem pode responder esta pergunta estúpida? Queria eu deitar sobre o busto de Diana para curar a chaga desta alma profana. Não há nada a se fazer a não ser recolher os morcegos que habitam o meu quarto. Por anos pensei que anjos transavam no porão da minha casa, mas agora sei que são demônios transando com fadas. O alvorecer já não me faz esquecer a dor das trevas... Pedirei a Zeus que me livre do inferno, mas sei que o paraíso queima. Quero apenas o purgatório!
A estrela maior acorda e seu calor faz arder à cicatriz, mas seca dos olhos o rio e aquece o coração servil. Outro copo, outro cigarro. Olhos dissimulados no espelho, vermelhos, vazios. Para ela o alvorecer é a treva do ser, de ser o que é. Diana oferece o colo e ela adormece.
domingo, 30 de setembro de 2007
As explosões do purgatório
Depois de um baque de remédios ela vê o purgatório, notório e sanguinário. Senta-se em uma pedra ensangüentada, a pedra da penúria, acende um cigarro e observa os empregados do diabo. Um rio corria à sua frente, o rio em que se afogavam as almas aflitas. No rio havia gaivotas que se alimentavam como urubus, da carniça das almas podres que boiavam no rio.
Algumas almas vinham cumprimentá-la, abraçavam-na, sussurravam em seu ouvido algumas palavras e partiam.
─ Ódio, medo, tristeza e dor. Disse uma alma solene. O hálito das almas eram amargos como as folhas das arvores do vale da inveja. Uma alma lhe disse palavras bonitas e ela a beijou. Seu corpo jogou-se contra o chão e o vômito invadiu suas narinas. Acordou em hospital, explodindo, gritando para o mundo surdo escutar a sua dor.
As explosões no purgatório, o medo e os delírios. Os remédios já não aliviam a dor e sim a aumenta. Os remédios trazem a dor para a alma e a torna aflita, como aquelas que vagam no purgatório, a estrada do desespero que leva a cidade da miséria.
Um eclipse adornou a noite, e da janela do hospital ela pode ver pela primeira vez a escuridão do céu que era doce, então ela se apaixonou. E gozou, pois a escuridão adentrou tuas entranhas, gozou pela primeira vez.
Os lábios das trevas tocaram tua alma e o teu corpo, ela sentiu a boca latejante da escuridão incandescente, os lábios das trevas beijando a dama de ébano.
No primeiro sussurro os deuses tocam a sinfonia, de uma harmonia pura e bela, simples e singela, o amor desalmado ou a almada dor. Tocaram as trombetas fúnebres e os órgãos sátiros, algumas notas são cínicas, mas se tornam belas e talvez até ingênuas.
E todas as sinfonias do mundo emaranhavam-se para formar a mais pura e bela harmonia já feita. E para ela o mundo era novo, a vida começara agora, após voltar do purgatório.
O homem, o campo...
A foice e a enxada, já não mais afagam a chaga.
A foice, a enxada e o céu. O cansaço, a vertigem e mais nada.
Faço a semeadura, limpo esta terra impura e adubo-a.
Com minhas unhas duras preparo-a e torno-a fértil.
E eu, o que tenho?
Tenho as mãos calejadas. Um rosto repleto de lágrimas, a boca pálida.
Ossos aparentes, voluptuosos, descontentes.
Cheiro forte de água-ardente, vazio entre os dentes,
Olhos secos como sementes.
E neste milharal sombrio, fétido e frio
Deste olho escorre um rio de lágrimas
Que se perdem entre as rugas ásperas.
A foice, a enxada e o céu. O cansaço, a vertigem e mais nada.
Faço a semeadura, limpo esta terra impura e adubo-a.
Com minhas unhas duras preparo-a e torno-a fértil.
E eu, o que tenho?
Tenho as mãos calejadas. Um rosto repleto de lágrimas, a boca pálida.
Ossos aparentes, voluptuosos, descontentes.
Cheiro forte de água-ardente, vazio entre os dentes,
Olhos secos como sementes.
E neste milharal sombrio, fétido e frio
Deste olho escorre um rio de lágrimas
Que se perdem entre as rugas ásperas.
quarta-feira, 26 de setembro de 2007
“A corrente e a liberdade”
Havia uma corrente atormentada jogada em uma calçada.. Ela, a corrente, sempre sonhou em ser uma corrente comum, destas que fecham portões e coisas parecidas, mas teve muito azar em seu oficio e sempre se ocupava de executar o papel das correntes do mal. O papel de aprisionar pessoas e animais. Seus traumas eram profundos, já havia acorrentado elefantes em um circo, já havia sido coleira de um tigre, enfim, já havia sido usada das maneiras mais penosas. Agora o que ela queria mesmo era o merecido descanso após anos e anos de trabalho árduo. Sonhava em aposentar-se e ficar em um canto oxidando até morrer, pois já estava triste e sem forças para segurar qualquer frágil passarinho.
Seis homens pardos viram-na jogada em uma rua, ela começou a ficar aflita, pois seus últimos donos não eram nada comuns Os seis homens saltaram sobre ela de uma forma voraz enquanto a pobre corrente retorcia-se de medo. Ela conseguiu escutar alguma coisa do que eles falavam, diziam que agora o protesto estava completo... Que todos iriam se sensibilizar com o drama dos sem-teto... Mas não conseguia entender o que planejavam aqueles homens.
Eles levaram-na a frente de uma igreja, na verdade a maior igreja que ela já havia visto. E passaram-na por entre seus punhos e calcanhares. As pessoas começaram a se aproximar e perguntar o porquê da corrente. Então vieram jornalistas e fizeram reportagens, todos tiravam fotos da corrente enquanto a pobre corrente encolhia-se de vergonha por não estar acostumada aos flashs da badalação. Mas com o tempo acabou acostumando-se com o alvoroço, e arriscou até algumas poses para as fotos. Todos paravam e a admiravam, como se o seu papel não fosse acorrentar e sim libertar aqueles homens.
Em tempos passados a corrente era muito triste, pois conseguia enxergar as lágrimas que escorriam dos olhos de quem estava sendo aprisionado. Sempre se sentia humilhada, pois os seus ideais eram libertários e todas as suas colegas correntes achavam hilária essa coisa de uma corrente ser libertária, mas ela não achava nada engraçado e evitava falar em ideais perto de suas companheiras de espécie. Havia tornado-se libertária quando serviu de algemas para um preso político, o rapaz era anarquista e levou consigo, para a cadeia, vários livros que tratavam do ideal anarquista. A corrente, por estar nos punhos do rapaz não pode evitar ler o que continha nas páginas destes livros, por isso acabou se tornando libertária.
Por ironia do destino ela seria a primeira corrente a libertar ou pelo menos tentar libertar alguém. Até que a pedido do padre a policia foi até a igreja para retirar do local os seis homens. Houve muita violência, desse tipo que passa em programas policiais no rádio e na TV. A corrente quebrou no meio da confusão não pode ver o jornal do dia seguinte que estamparia em sua primeira página: “A corrente da liberdade”. Infelizmente mesmo com a manchete de jornal os seis rapazes acabaram sendo presos, o que parece outra ironia do destino.
segunda-feira, 24 de setembro de 2007
Os elefantes
Disseram-me que são pesadas minhas palavras. E são sim, são como elefantes.
Morto, morte, facínora, genocídio, chacina, carnificina...
Vocês vêem os elefantes? Elétricos, infantes. Os meus elefantes não têm medo de vocês, ratos. Eles irão avante como nobres elefantes bastardos e sórdidos.
Eles enfrentarão os abutres e não obedecerão aos leões.
Oh, como são bravos meus elefantes.
Levante elefante e crave teu marfim no calcanhar deste gigante.
Espalhem sobre a relva ardente como a mente de quem os carrega.
Oh, amargo elefante ardente, levante infante e mate o gigante!!!!!!!!
Eu sobrevivi ao matadouro, e lá havia carniça, cachaça e assassinos.
Agora desejam que sejam leves minhas palavras? Matem-me. Ou carreguem para sempre os elefantes.
Morto, morte, facínora, genocídio, chacina, carnificina...
Vocês vêem os elefantes? Elétricos, infantes. Os meus elefantes não têm medo de vocês, ratos. Eles irão avante como nobres elefantes bastardos e sórdidos.
Eles enfrentarão os abutres e não obedecerão aos leões.
Oh, como são bravos meus elefantes.
Levante elefante e crave teu marfim no calcanhar deste gigante.
Espalhem sobre a relva ardente como a mente de quem os carrega.
Oh, amargo elefante ardente, levante infante e mate o gigante!!!!!!!!
Eu sobrevivi ao matadouro, e lá havia carniça, cachaça e assassinos.
Agora desejam que sejam leves minhas palavras? Matem-me. Ou carreguem para sempre os elefantes.
terça-feira, 18 de setembro de 2007
O espelho
Fiz uma construção concreta, em condições precárias.
Minhas mãos calejadas construíram este horizonte,
Pouco a pouco, par a par, devorando o cimento
Que misturado com vento adoece o meu olhar.
Olhar esse que nada pode enxergar além destes tijolos,
Vermelhos, rivais, pobres,
Por serem mais iguais que nós...
Minhas mãos calejadas construíram este horizonte,
Pouco a pouco, par a par, devorando o cimento
Que misturado com vento adoece o meu olhar.
Olhar esse que nada pode enxergar além destes tijolos,
Vermelhos, rivais, pobres,
Por serem mais iguais que nós...
domingo, 16 de setembro de 2007
Nada de podre no estado capitalista me espanta
Os jornais estamparam na suas primeiras páginas esta semana a absolvição do presidente do senado Renan Calheiros, este fato me chamou muito a atenção para a estupidez das pessoas. Olhe quão tolo somos nós (do mundo, pois não é só aqui no Brasil que isto acontece.), como podemos aceitar que outras pessoas decidam por nós aquilo que nós devemos decidir?
Coisas ilícitas acontecem todos os dias dentro das sedes políticas, são roubos, nepotismo, e todas as formas de benefícios que alguém que possui poderes pode fazer. E isto acontece em todas as cidades, mas só aparece quando o governante é inimigo político dos meios de comunicação. Estes senhores querem apenas adquirir latifúndios, imóveis, poder etc., eles nada tem haver com melhorias sociais. Que governo do povo porra nenhuma, todo governo seja ele de direita ou de esquerda precisa se centralizar para se manter. E quem está no centro? O povo? Os burgueses? No centro estão as corporações, as multinacionais do G7. Estas sim têm algum interesse em manter centralizado o poder dos países.
Renan Calheiros não é nenhuma aberração, todos que estão no poder são como ele, inclusive este presidente estúpido que aceita ser manipulado para se manter no poder. Os piqueteiros do passado só queriam chamar atenção, alías todos aqueles que acreditavam realmente no que diziam foram esmagados, mortos ou boicotados por estes falsos personagens do teatro midiático.
Todos nós possuímos um lado individualista e este lado se torna muito mais forte quando possuímos algum tipo de poder. Por isso não me espanta quando estes donos do poder são desmascarados. Qualquer pessoa que se torna poderosa usará isto a seu próprio favor e não a um favor social. O coletivo só se envolve no individuo quando se compartilha interesses em comum. A democracia é uma utopia quando se fala em igualdade, nunca existirá igualdade em um estado democrático, pois a elite sempre usará seu capital para proteger seus feudos.
O caso do presidente do senado está em evidencia nos meios de comunicação porque certamente ele mexeu aonde não devia, no popular “colocou a mão na cumbuca” até parece que este não é macaco velho.
Agora a elite “colocou as asinhas de fora” e está organizando um movimento chamado “Cansei”. Quando escuto a propaganda no rádio ou na TV começo a rir desta piada inventada pela ordem dos advogados, uma piada elitista que visa derrubar o que está péssimo para construir algo pior. Para detectar que há algo de podre neste movimento basta escutar a propaganda, pois se a propaganda toca no rádio, um veículo a serviço das grandes corporações, já dá para imaginar o que está por vir. Dizer que estão do lado do povo é uma mentira sem tamanho, um movimento que tem o apoio da “Vaca Camargo”, faça-me o favor. Vocês se esqueceram que ela perguntou em seu programa de imbecilidades por que todo pobre tem o calcanhar rachado? Não preciso dizer mais nada a esse respeito, isto já basta neh?
A organização da sociedade deve ser feita de forma direta, por cada comunidade. Assim haverá igualdade e liberdade. O poder teve e tem até hoje o cuidado de marginalizar as idéias anarquistas, pois assim eles conseguem continuar explorando o corpo e mente de todos que vivem em um estado capitalista. Mas em todos que conseguiram limpar os olhos e enxergar o que está por traz deste espetáculo, há uma chama, uma chama que não se apagará nunca.
Os novos tempos estão chegando, pois com a marginalização dos professores a classe dominante esta seguindo outras carreiras. Os cursos de licenciatura estão repletos de oprimidos, pessoas que sentem e sempre sentiram o que poder faz por pura ganância. A educação dentro de anos estará nas mãos de pessoas que almejam uma verdadeira mudança. Então será a hora em que a revolução começará, será a vez dos excluídos.
sábado, 15 de setembro de 2007
O engarrafamento
Era inevitável a pressa daquele ônibus, todos eram muito apressados. O ônibus sempre estava cheio, as pessoas conversavam coisas fúteis, assuntos de ônibus. Uns discutiam onde queriam ser enterrados, outros comentavam sobre a festa que iam no final de semana, mas no geral todos estavam muito preocupados com a hora.
E o ônibus corta a cidade como um raio para logo chegar ao seu devido destino. Rasgando o vento, queimando o asfalto. Pouco a pouco saía da cidade, ao redor, só o distrito industrial. Já estávamos entrando na zona rural. As estrelas brilhavam no céu, não havia nenhuma nuvem. Só mesmo as estrelas e a lua. O calor era quase insuportável. O rapaz que se encontrava ao meu lado dormia um pouco, sua feição demonstrava cansaço, um repouso de vinte minutos em um ônibus superlotado pode ajudar muito a despertar do sono.
O ônibus segue seu rumo normal, mas quando vira a direita e entra na rodovia, algo inesperado acontece. Ali estava um grande e belo engarrafamento. Os veículos apressados agora eram obrigados a manterem-se calmos, as pessoas apressadas que estavam no interior destes veículos eram obrigadas a permanecerem controladas. Algo acontecera há minutos atrás e quilômetros à frente.
As pessoas começam comentar, especular sobre a causa do engarrafamento. Umas falam que provavelmente deve ter ocorrido um acidente, outras falam que o engarrafamento se deve há uma batida policial, mas todos demonstravam curiosidade. As cabeças contorciam-se para observar o que estava à frente de um ângulo melhor. Os corpos antes escondidos atrás das cadeiras agora estavam aparecendo pelo corredor do ônibus, em uma espécie de contorcionismo mágico. Qual seria o desfecho deste episódio? Ninguém saberia responder, mas todos esperavam algo sórdido, com muito sangue e com muitas fraturas.
Os veículos caminhavam lentos, as luzes mais vistas já não são mais as luzes das estrelas e sim as luzes vermelhas das lanternas de freio. Um terrível suspense pairava na atmosfera do veículo, a curiosidade tomava conta de todos que ali estavam. A cada movimento que o ônibus fazia, maior era a curiosidade daquelas almas aflitas, sedentas de sangue.
Aos poucos o mistério se desvendava, pois um guincho passa com um raio pelo acostamento. Começa novamente a especulação. Então quando menos se espera aparece no acostamento três carros, mas ao contrario do que todos pensavam não havia sangue, muito menos morte. Foi apenas um leve arranhão de apressados, coisas do dia a dia. Uma garota que estava ao meu lado disse em tom sarcástico se era por isso que sua viagem tinha atrasado tanto. Uma amiga desta garota disse:
- Que saco, eu esperava muito mais! Questionei em meu pensamento o que queriam aquelas pessoas. Mas o acaso trouxe-me a resposta. Alguns metros a frente estava um corpo esticado, ensangüentado, de um homem que havia sido atropelado não por um, mas por vários veículos. Havia sangue e morte. O drama fica por conta de uma senhora que estava sendo segurada por civis, pois queria ir de encontro ao corpo, ou melhor, de encontro ao resto de corpo. Deve ser a mãe do rapaz. Todos respiram aliviados, com uma espécie de sorriso interno não demonstrado pela coerência. O atraso valeu a pena.
sexta-feira, 14 de setembro de 2007
A agulha
A agulha fura o balão
E acaba com a festa. Ainda não era a hora.
- E agora? Gritou a mãe.
- Agarra as crianças e junta os doces!
- È, e faz sorteio.
- Não! Dá briga.
- È verdade, causa intriga.
Então enfia a agulha no cú do cuzão que furô o balão!!!!
E acaba com a festa. Ainda não era a hora.
- E agora? Gritou a mãe.
- Agarra as crianças e junta os doces!
- È, e faz sorteio.
- Não! Dá briga.
- È verdade, causa intriga.
Então enfia a agulha no cú do cuzão que furô o balão!!!!
quarta-feira, 12 de setembro de 2007
Alva
Alma alveje meus sentidos,
Almeje o que é digno, a alma libertária.
A alma é multi, mas nós a mutilamos.
A partimos em pedaços e deixamos os destroços
No retorno ao lar. E por falta de ar
Os pedaços vão morrendo aos poucos,
Sofrendo a falta da mãe.
Almeje o que é digno, a alma libertária.
A alma é multi, mas nós a mutilamos.
A partimos em pedaços e deixamos os destroços
No retorno ao lar. E por falta de ar
Os pedaços vão morrendo aos poucos,
Sofrendo a falta da mãe.
A FAXINA
Lia era uma garota que esboçava simplicidade, carregava o mundo nas costas. Casou-se cedo com seu primeiro namorado e às vezes se trancava no banheiro para chorar. Seu marido, Aroldo estava sempre fatigado devido a seu trabalho árduo e penoso. Ele trabalhava em uma empresa muito antiga, seu patrão era um tanto ranzinza e às vezes procurava motivos para açoitar-lo com horas extras e com trabalhos árduos que não eram sua obrigação. Mas apesar desta vida monótona Lia sentia-se feliz ás vezes, e vazia quase sempre.
Lia e seu esposo, moravam em uma casinha alugada na periferia de São Paulo. Era uma casa simples sem grandes luxos, um quintal, uma sala, um quartinho e um banheiro. Se analisarmos sua beleza do ponto de vista da construção, seria uma casa demasiadamente feia, mas Lia cuidava da casa de tal forma que ela ficava muito aconchegante.
Aos sábados Lia fazia faxina, tirava os móveis do lugar, jogava água para lá e para cá enquanto Aroldo dormia, pois ele tinha o costume de dormir um pouco mais no sábado devido ao cansaço da semana de trabalho. Todos os sábados quando ele acordava a casa estava de pernas para o ar. Então calmamente sentava-se em sua poltrona e começava ler alguma coisa. A casa desarrumada era uma tortura para Aroldo, pois como já disse a construção onde o casal morava era demasiadamente feia e ele se sentia culpado por não poder dar mais conforto a Lia. Aos sábados quando Aroldo acordava logo no primeiro passo para fora do quarto, ele já esbarrava em algum móvel no caminho, o aparador ou o sofá. Irritava-se extremamente com isso, mas quando via que Lia estava trabalhando duro na faxina calava-se e fingia que nada o aborrecia.
Certa noite Aroldo se atrasou um pouco no trabalho e chegou em casa três horas atrasado. Logo ao abrir a porta de sua casa sentiu um forte cheiro, mas logo reparou que Lia havia feito à faxina. Sentiu uma leveza no coração por saber que sábado não iria ser incomodado em seu descanso. Foi ao banheiro, pois estava um pouco apertado e gritou para que Lia trouxesse uma toalha, pois queria tomar banho. Reparou que Lia não o respondia e foi até o quarto ver se ela realmente estava em casa.
Quando abriu a porta do quarto se deparou com Lia morta em cima da cama. Seus lábios que outrora sempre estavam cheios de batom agora estavam azuis, sua pele estava pálida e seus olhos abertos davam impressão que ela olhava no fundo dos olhos de Aroldo. Ao seu lado havia uma carta que Aroldo logo tomou a mão, na carta estavam escritas as seguintes palavras:
Aroldo,
Fiz a faxina. Queria poder lhe dizer palavras bonitas neste momento, mas a verdade é que foi você quem me matou com essa sua apatia. Espero que você morra, Verme.
Ele sentou-se ao lado da cama e começou a chorar. De repente um escaravelho entrou no quarto e pousou bem próximo a Aroldo. Ele permaneceu minutos olhando o escaravelho e em um segundo lançou sua mão sobre o animal. Ficou observando-o por horas, sem ao menos piscar. Guardou o escaravelho no bolso da calça e foi até a rua respirar um pouco.
-Agora que Lia tá morta quem eu vou amar? Aquilo que eu mais desejo é estar perto de Lia, mas aquilo que ela me disse na carta... Talvez eu seja um frouxo mesmo! Eu acreditava na nossa felicidade, acreditava mesmo. Mas agora ela tá morta.
Aroldo levou a mão até o bolso pegou o escaravelho e começou a beijá-lo. Fez declarações de amor a ele e disse que eles seriam realmente felizes. Caminhou por todas as ruas do bairro com o escaravelho na mão, mostrando o bairro para o seu novo companheiro. Até que a noite veio e Aroldo resolveu voltar a casa para decidir o que iria fazer com o que restou de Lia.
Ao chegar à sala de estar da casa Aroldo se deparou com uma barata e se lembrou que lia morria de horrores quando via alguma. Rapidamente Aroldo se apossou da pobre criatura e a levou até ao quarto onde Lia se encontrava. Passou à barata nos lugares mais íntimos de Lia, sentia-se feliz fazendo isso. Para ele era como uma vingança pelo abandono. Então em um súbito instante ele abriu a boca de Lia e depositou a barata ali. Se preocupou em segurar o maxilar forçosamente por uns instantes para se assegurar que a boca não iria se abrir.
A figura de Lia não saia da cabeça de Aroldo, ele caminhava pela casa, pela rua e nada fazia aquela figura sumir de sua mente. Chegou até pensar estar sendo assombrado por Lia.
- Agora que a Lia tá morta eu vo te que dá um jeito na minha vida, pensou. Aquilo que a Lia mais queria era viajar. Talvez eu vá viajar? Não, melhor não, iriam pensar que fui eu quem a matou. Pega o escaravelho e se dirige para o quintal da casa.
No quintal havia lixo e em algumas partes onde o concreto cedia havia pequenos ramos de mato. Para Aroldo nada mais fazia sentido, tudo em que ele acreditava havia desabado junto com Lia. Passaram-se dias e noites Aroldo ainda se encontrava ali imóvel, intacto. Seu rosto já não mais esboçava alguma expressão ou sentimento. Mas por todo este tempo ele manteve o escaravelho ali, em sua mão, por mais que este tentava soltar-se Aroldo o apertava cada vez mais até que o bichinho desistisse. Quando Aroldo acordou da sua meditação profunda reparou que o escaravelho não lutava mais.
- Oh, não! O que fiz agora Deus! O que fiz com esta pobre criatura. O que faço eu sem ela? O que farei? Agora que sinto o gosto do sangue, o gosto do fel. Por que fazes isto comigo, monstro? O que fiz para merecer isto? Gritou Aroldo em tom de súplica.
Ele levanta-se e corre até a rua, mas quando está próximo à esquina de sua casa Aroldo resolve voltar para acertar as contas com Lia. Entra na casa mais eufórico do que estava quando saiu e dirige-se para o quarto da defunta.
O cheiro do corpo já estava começando a surgir no ambiente e se encontrava da mesma forma como Aroldo havia deixado. Ele se aproximou da cama onde se encontrava o corpo, se abaixou ao pé da cama e ficou observando o corpo e todo o quarto que havia sido o cenário da alegria passada. Permaneceu imóvel por dois dias. No final do segundo dia se levantou e sentou-se ao lado do corpo.
Ele tomou o escaravelho à mão e por alguns instantes observou-o, algumas lágrimas escorreram pelo rosto de Aroldo. Mas em um instante de fúria Aroldo arrancou o olho esquerdo de Lia e em seu lugar depositou o escaravelho.
Um cacto
O cacto caiu do vaso.
O pacto então foi traído.
Já não está mais intacto ou apto a ser cacto.
O fato é que, cacto careca não funciona,
Pois é da sua aptidão espinhar quem se aproxima.
O pacto então foi traído.
Já não está mais intacto ou apto a ser cacto.
O fato é que, cacto careca não funciona,
Pois é da sua aptidão espinhar quem se aproxima.
segunda-feira, 10 de setembro de 2007
Caça as pulgas.
Desde quarta-feira, 15 de agosto, seis sem-tetos se acorrentaram em frente à Igreja Matriz de Itapecerica da Serra para pressionar o prefeito Jorge Costa e os vereadores a cancelarem a liminar de despejo para o terreno da Vila Calu e transferir a área para o programa CDHU - Companhia do Desenvolvimento Habitacional e Urbano -, conforme estabelecido em negociações entre o movimento e governo estadual e federal.
Seis, este era o numero deles, seis sem-tetos. Acorrentados uns aos outros, formando um cordão humano ou subumano. O que queria passar aquela meia dúzia? Será a indignação de quinhentos anos de escravidão, de servidão? Será que eles querem alguma indenização? Pressionar os vereadores e o prefeito não é motivo para se acorrentar. Acho mesmo que eles desejam ser reescravizados. Assim certamente terão um lugar onde dormir, algo para comer, trapos para vestir.
Algumas pessoas certamente deram boas gargalhadas com o desespero daqueles homens, fizeram piadinhas de mau gosto etc. Isso por que certamente nunca passaram fome, frio, nunca tiveram que tomar banho na rua com água gelada. Esses homens nada mais tinham a perder, certamente não tinham um emprego, pois nenhum patrão empregaria alguém que não tem um endereço.
Para o prefeito e os vereadores pouco importa se estes pobres coitados estão acorrentados ou não. Isso não muda o rumo normal das coisas, pelo menos na vida destes nobres senhores que vivem a serviço da justiça. Justiça essa que enclausura famintos que por não ter o que comer pegaram um feijão sem pagar.
O nosso coração gelado já não se sensibiliza mais com esse tipo de atitude, isso que corre em nossas veias é tão gelado quanto nosso coração. Talvez seja por isso que as pulgas e os carrapatos prefiram habitar o corpo dos mendigos, pois estes sabem o que é o amor verdadeiro, a felicidade verdadeira. Que não é encontrada nas prateleiras dos shoppings que freqüentamos.
Imagino que se estes pobres escolhessem outro caminho para demonstrar sua indignação, se eles se armassem e partissem para um confronto na prefeitura. Certamente seriam mais escutados do que agora, acorrentados.
Isso me faz lembrar que talvez eles estejam tentando mostrar aquilo que esta oculto na sociedade, as correntes. Todos nós estamos presos a dogmas, preconceitos, a culpa cristã etc., mas não enxergamos as correntes que nos aprisiona por que não é conveniente enxergar (a conveniência é outra corrente). Portanto talvez estes pobres senhores sejam nobres salvadores da humanidade. Estes homens, não podemos subestimá-los, pois ao menor descuido estamos atrasados no raciocínio lógico que tiveram quando elaboraram esse protesto.
Eu acho que vou ir morar na rua para aquecer um pouco meu coração. Vou sair em uma caçada, na caça as pulgas. Aquecer meu sangue novamente é uma ótima idéia. Imagine na manchete do jornal:
A mais nova descoberta da ciência pulgas e carrapatos são um sinal de felicidade. Talvez estes homens sejam visionários e estejam à frente do nosso tempo.
Seis, este era o numero deles, seis sem-tetos. Acorrentados uns aos outros, formando um cordão humano ou subumano. O que queria passar aquela meia dúzia? Será a indignação de quinhentos anos de escravidão, de servidão? Será que eles querem alguma indenização? Pressionar os vereadores e o prefeito não é motivo para se acorrentar. Acho mesmo que eles desejam ser reescravizados. Assim certamente terão um lugar onde dormir, algo para comer, trapos para vestir.
Algumas pessoas certamente deram boas gargalhadas com o desespero daqueles homens, fizeram piadinhas de mau gosto etc. Isso por que certamente nunca passaram fome, frio, nunca tiveram que tomar banho na rua com água gelada. Esses homens nada mais tinham a perder, certamente não tinham um emprego, pois nenhum patrão empregaria alguém que não tem um endereço.
Para o prefeito e os vereadores pouco importa se estes pobres coitados estão acorrentados ou não. Isso não muda o rumo normal das coisas, pelo menos na vida destes nobres senhores que vivem a serviço da justiça. Justiça essa que enclausura famintos que por não ter o que comer pegaram um feijão sem pagar.
O nosso coração gelado já não se sensibiliza mais com esse tipo de atitude, isso que corre em nossas veias é tão gelado quanto nosso coração. Talvez seja por isso que as pulgas e os carrapatos prefiram habitar o corpo dos mendigos, pois estes sabem o que é o amor verdadeiro, a felicidade verdadeira. Que não é encontrada nas prateleiras dos shoppings que freqüentamos.
Imagino que se estes pobres escolhessem outro caminho para demonstrar sua indignação, se eles se armassem e partissem para um confronto na prefeitura. Certamente seriam mais escutados do que agora, acorrentados.
Isso me faz lembrar que talvez eles estejam tentando mostrar aquilo que esta oculto na sociedade, as correntes. Todos nós estamos presos a dogmas, preconceitos, a culpa cristã etc., mas não enxergamos as correntes que nos aprisiona por que não é conveniente enxergar (a conveniência é outra corrente). Portanto talvez estes pobres senhores sejam nobres salvadores da humanidade. Estes homens, não podemos subestimá-los, pois ao menor descuido estamos atrasados no raciocínio lógico que tiveram quando elaboraram esse protesto.
Eu acho que vou ir morar na rua para aquecer um pouco meu coração. Vou sair em uma caçada, na caça as pulgas. Aquecer meu sangue novamente é uma ótima idéia. Imagine na manchete do jornal:
A mais nova descoberta da ciência pulgas e carrapatos são um sinal de felicidade. Talvez estes homens sejam visionários e estejam à frente do nosso tempo.
domingo, 9 de setembro de 2007
Ritus
Massacre de etnias, estupro de um sexo, amor violado...
Sangue, dor, Deus contra o Diabo... Violação de vidas.
Queimaram-nos, mas agora retornamos em matéria.
Ritus sinto dor no peito, falta d’alma, instinto de vingança.
Mentes deturpadas, mentiras contadas, anjos inversos, perversidade retórica.
Entrego-me ou mato-me?
Queimaram as bruxas e ninguém mais dança ao redor da fogueira.
Negue! Negue que por proclamar a verdade inocentes foram mortos,
A chaga, o desespero, uma frágil alma violada por mentiras.
Entrego-me ou mato-me?
Não!!!!!!! Ainda há uma chama acesa em meu coração,
Um grito surdo de desespero, um levante de espírito.
A intifada da alma contra matéria, mas o corpo assassinou o espírito,
O corpo assassinou o espírito.
E o que me resta? O que me resta????????
O corpo pouco a pouco fez espírito se transformar em um nada,
A matéria tomou posse do instinto,
O sórdido corpo sempre embriagado de soberba ama-se,
Invade o espaço d’outro por mero prazer, por fetiche.
A dor corrói a minh’alma e sussurra em meu ouvido:
Dance ao redor da fogueira, destrua o paraíso ilusório, a cegueira...
Bruxas, anjos caídos, espíritos usurpados...
Dancem!!!!!!!Dancem!!!!!!
Dançaremos em volta da fogueira e queimaremos toda matéria provinda da exploração,
Desvendaremos a verdade e enfim seremos livres.
Não lhe entregarei lágrimas, prefiro ver meu sangue escorrer.
Destruirei o culto de seus mitos, proclamarei a sua queda, dançarei sobre suas ruínas.
Nem demônios, nem deuses, apenas ódio por amor.
Rituais celebrados por reencarnados, voltei para vingar-me.
Por séculos estive de luto, mas agora estou em guerra.
Não me entrego, nunca o farei, não obedeço a ti, nunca o farei.
E eu, quem sou eu??????????
Eu sou a vingança da aldeia destruída, da criança na lavoura, da estuprada, da extirpada, da senzala, do servo, do retirante, do miserável...
Estendo minha mão a todos que desejam lutar, a todos que desejam envoltar a fogueira e evocar a queda do opressor, a todos os usurpados, renegados da discórdia.
Vinguem! Vinguem! Enterrem a lança no peito do imperador.
Queimem! Queimem! Nossas fogueiras serão feitas com suas mentiras e com suas fortunas.
Das lagrimas fiz o ódio, na loucura detectei a verdade,
Minha pobreza vem de sua exploração, mas o que é pobreza afinal?
A dor e as lágrimas me tornam mais forte,
Eu sou o ódio!!!!!!!!!!
Os excluídos dançarão juntos sobre as cinzas de seu império,
Pois ele foi construído com nosso suor.
A guerra é necessária, pois a paz só existe quando o oprimido se cala ou é jogado na vala!!!
Mas esta noite o oprimido não mais se calará, gritará refrões de punhos erguidos e com armas nas mãos.
O ritual segue e mantém nossos corações vivos, não enterraremos nossas almas!!!!!!!!!!!!!!!
Anjos inversos de armas nas mãos destruindo a ilusão do paraíso cristão.
O medo já não nos cala,
A guerra está proclamada!
Anjos inversos de armas nas mãos destruindo a ilusão do paraíso cristão.
O inferno é a exclusão.
segunda-feira, 3 de setembro de 2007
Quando chega a colheita
Enfim na porta do seu reino, trago aqui dentro de mim noticias ruins.
Há uma duvida que tira de mim a paz.
Devo então ser perseguido pelo sonho indevido?
O que há em mim então, o que há em nós então?
Sempre estive na tormenta, mas nenhuma foi tão agourenta.
Traz para mim a tua paz.
Vim por insatisfação, peso em meu coração.
Tenho noticias ruins, tenho noticias ruins.
Eu cansei de ser diabo, tolo, infame e sedentário.
Mas minha alma não, por mim peço perdão, mas por ela não.
Pois ela não se cansa e nem cansará, tem prazer em ver sofrer.
Em ver e em fazer sofrer.
O que quer filho pagão? Alma minha não posso te perder.
O que quero é o perdão, vindo de seu coração.
Pode me conceder? Pode me conceder?
Alma viva, corpo morto.
Por que traz esse desgosto, pois se de tudo eu te dei?
Mas eu tenho a solução, posso lhe dar o perdão se me der teu coração,
Pode confiar em mim?
Em meu peito há um vazio, tão opaco e sombrio.
Me soou como uma provocação:
“Vindo de seu coração”...
Então corta a carne, algoz.
Monstro infame e feroz,
O que irá sobrar de mim?
Restará sangue e vazio, e seu peito tão viril ficará seco e frio.
Toma porque é sangue teu, vê como a alma sorri?
Tens então o teu perdão.
Olha! Pulsa em minha mão.
Tu não tens mais coração, volta a ser diabo então.
E lhe concedo o perdão.
Não há mais o que pesar, não há mais onde doer,
O teu coração é meu, tua alma minha.
És diabo e fadado a arder com ferro e fogo
O corpo e a alma dos que querem ser como tu, ingrato.
Há uma duvida que tira de mim a paz.
Devo então ser perseguido pelo sonho indevido?
O que há em mim então, o que há em nós então?
Sempre estive na tormenta, mas nenhuma foi tão agourenta.
Traz para mim a tua paz.
Vim por insatisfação, peso em meu coração.
Tenho noticias ruins, tenho noticias ruins.
Eu cansei de ser diabo, tolo, infame e sedentário.
Mas minha alma não, por mim peço perdão, mas por ela não.
Pois ela não se cansa e nem cansará, tem prazer em ver sofrer.
Em ver e em fazer sofrer.
O que quer filho pagão? Alma minha não posso te perder.
O que quero é o perdão, vindo de seu coração.
Pode me conceder? Pode me conceder?
Alma viva, corpo morto.
Por que traz esse desgosto, pois se de tudo eu te dei?
Mas eu tenho a solução, posso lhe dar o perdão se me der teu coração,
Pode confiar em mim?
Em meu peito há um vazio, tão opaco e sombrio.
Me soou como uma provocação:
“Vindo de seu coração”...
Então corta a carne, algoz.
Monstro infame e feroz,
O que irá sobrar de mim?
Restará sangue e vazio, e seu peito tão viril ficará seco e frio.
Toma porque é sangue teu, vê como a alma sorri?
Tens então o teu perdão.
Olha! Pulsa em minha mão.
Tu não tens mais coração, volta a ser diabo então.
E lhe concedo o perdão.
Não há mais o que pesar, não há mais onde doer,
O teu coração é meu, tua alma minha.
És diabo e fadado a arder com ferro e fogo
O corpo e a alma dos que querem ser como tu, ingrato.
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