Eu vi que estes prédios sufocavam.
Transformavam o mangue em canibal,
Mangue que como mangue, dor que acaba em ódio.
Rádio ressoa o inferno, que é simplesmente caótico.
O ar sufocava, a fumaça, a desgraça...
Por que não tem céu? Tudo aqui é inferno!
Com o gosto de fel, primeiro leite materno.
O ar desgraça sufocava a fumaça...
Tão cinza é o horizonte, como as cinzas do canibal.
A glória aqui é o suicídio o frio estomacal.
O que nos reduziu ao nada?
O massacre da terra das fadas?
O ar envenena, terra que não refresca,
Mangue que não é mangue, fome que atesta.
Desgraça da vida, infância envelhecida.
Sufoca o inferno da alma querida.
Tudo é impuro e infame, é lobo sobre lobo.
Trapaça no jogo do céu, a perda é o lodo.
Mangue que é inferno, tudo que é nada.
Inferno que é mangue, alma que sozinha vaga.
quinta-feira, 25 de outubro de 2007
quarta-feira, 17 de outubro de 2007
Sentimentos
O que sinto é nos poros! O resto não é nada.
O que sinto é no corpo, a alma veste armadura.
Escura com os desejos mais sórdidos, como a sorte no jogo em que apostei minha vida.
Logo pensarei a mentira, mas ela eu não posso sentir.
No jogo um infeliz gigante crava a lança em minha alma,
Para a sorte da feliz alma que retira a armadura e morre leve e desalmada.
Agora é o corpo quem pena com o peso dos sentimentos.
sexta-feira, 12 de outubro de 2007
O fardo
Uma ama-de-leite que te aceite,
É isso que você quer.
Uma ama-de-leite,
Não uma mulher.
Desmamado como um bezerro frágil
Que sente falta da vaca,
Amado por qualquer fêmea ágil,
Ressoando vozes opacas.
A isso se resume o amor,
o amor de homem/mulher.
Amor de bicho é para a mãe o clamor,
o resto é coisa qualquer.
O homem é criatura sem alma,
Só a mulher sabe o que é amor.
Por isso seus beijos o acalma,
Mas para ela causam dor.
A mulher é ama-de-leite,
O homem é bicho desmamado
Que procura alguma que o aceite
Para culpá-la por seus pecados.
O verme
Nas férias de julho minha família sempre viajava e naquelas férias não foi diferente, nós fomos para o sitio de uns primos de minha mãe. Já eram duas da madrugada e ninguém havia dormido ainda, minha mãe ficava gritando com todo mundo. Era costume dela ficar nervosa nas vésperas de nossas viagens. Meu pai até tirava uns minutinhos para cochilar, mas dormir mesmo era impossível, porque como eu disse minha mãe ficava gritado com todo mundo.
Eram seis horas da manhã e minha mãe já vinha subindo as escadas para me acordar, e então ela esmurrou a porta e ficou gritando que já passou da hora. Eu levantei escovei os dentes, e fui logo para o carro para continuar dormindo. Eu sabia que eles ainda demorariam porque certamente iriam ficar mais umas duas horas discutindo antes de sair, mas eu fazia logo a minha parte para evitar problemas.
Mal estávamos na estrada e meu pai já queria parar para tomar café, ele era viciado em café. Paramos um pouco e continuamos o nosso caminho. Entramos em uma estrada de terra e após duas horas e meia de poeira chegamos ao sítio.
O povo do sítio nos recebeu com muito carinho, fizeram bolo e doces, o que eu achei a melhor parte. Pedi a minha mãe que me deixasse caminhar um pouco, pois já estava cansado de permanecer sentado. Ela deixou com a condição que eu não fosse muito longe. Fiquei por longas horas caminhando pelo pasto, até que vi uma figueira do outro lado da cerca. Resolvi ir até lá, pois que mal poderia encontrar no meio desse matagal?
Ao chegar em baixo da figueira a sua sombra era tão fresca que tive a vontade de deitar-me por um tempo. Quando já estava quase cochilando ouvi algo se aproximando rapidamente, levantei-me em um pulo e então pude ver do que se tratava. Era uma enorme cobra, a maior que eu já tinha visto (até aquele dia eu só havia visto cobras-cegas). Ela era maior do que a cobra do filme “Anaconda”, seus dentes eram do tamanho dos meus braços, sua cabeça era maior do que meu corpo inteiro. Ela era verde e preta, e tinha olhos de cólera.
A cobra permaneceu intacta, como eu, por duas horas. Eu olhando para os olhos dela e ela fixada em meus olhos. Depois de duas horas que ali estávamos resolvi tentar sair de mansinho, mas a cobra continuava a me olhar. Dei alguns passos para trás e ela permaneceu na mesma posição. Virei-me e comecei a correr, mas minha corrida não durou mais do que dez passos, pois a cobra me abocanhou de uma só vez.
Depois de algumas horas desacordado pelo susto, acordei com muito calor. Estava muito apertado e quente, eu também estava todo molhado, mas não era água, aquilo era uma gosma que eu acho que servia para que a presa deslizasse mais facilmente para a barriga da cobra. Fiquei sem comer durante seis dias até que a cobra engoliu um coelho, você não sabe como é gostosa a carne de coelho cru.
A vida dentro da cobra não é muito ruim, o único problema é que a água é pouca por isso eu nunca tomo banho, mas isso para mim não é problema. Nunca gostei de tomar banho mesmo. No verão faz um pouco de calor, mas com o tempo agente acostuma. Este mês a cobra engoliu um boi inteiro, agora tem comida para uns dois meses.
Alguns dias depois de ter engolido o boi, pude perceber que ela havia abocanhado outra presa, achei muito estranho por que ela passava meses sem alimentar-se. Quando de repente chegou à minha companhia uma pequena caixa preta. Reparei um que nada selava a caixa, ela estava completamente aberta bastava só eu retirar a sua tampa que estaria pronto para deleitar-me com o que havia dentro da caixa. Mas o que será que a caixa guardava?
Hesitei por alguns instantes, mas acabei por abrir a caixa misteriosa. Para minha surpresa a caixa guardava velhos papéis rabiscados. Fechei-a e fui dormir, já estava a muito tempo acordado e precisava descansar um pouco.
Depois de algumas horas acordei a comi alguma coisa, como era difícil romper a carcaça do boi. Quando terminei o desjejum fui logo até a caixa ver o que tanto guardava aqueles papéis.
Peguei aquelas incontáveis folhas e comecei a dissecar as palavras impressas, não havia nenhuma palavra bonita. Na maioria das folhas estava escrito apenas uma palavra, morto, suicídio, cólera, eram algumas das palavras que encontrei. Mas a palavra que me chamou a atenção mesmo foi “verme”, como pude permanecer aqui por tanto tempo sem pensar nesta palavra? Verme a palavra da minha vida insignificante, eu sou o verdadeiro, ou melhor, “o próprio verme”.
Aquela palavra me perseguia, me causava cólera. A angustia tomava como um sopro o meu frágil peito de verme. A pobre cobra por meses suportou-me aqui sugando tudo que ela conquistava por seus méritos, como pude ser tão algoz?
Depois de perder a batalha que travei em minha consciência resolvi voltar pelo mesmo caminho onde havia entrado, mesmo que isso traga riscos para minha integridade física. Porque para o meu espírito não trará nenhum risco. Deixar de ser verme era o que eu mais queria naquele momento. Não conseguia mais carregar este fardo que pesava sobre o meu corpo desnutrido.
Passei a gosma do estomacal da cobra no peito e colei o papel que significou meu desassossego. E com a verdade estampada no peito saí desbravando o interior da cobra, mas quando cheguei próximo a sua boca ela sentiu-se sufocada e espirrou. Atirando-me de encontro as suas presas e a ponta feriu-me. Ela me jogou imediatamente para fora de sua boca. Finalmente deixei de ser um verme.
Mesmo tendo morrido devido ao veneno que me penetrou quando suas presas me perfuraram, estou feliz porque agora posso dar algum sentido a minha vida, ou melhor, a minha morte. Alguns vermes estão alimentando-se do meu corpo. Como pode um verme comer o outro?
quinta-feira, 11 de outubro de 2007
Cigana
Quis nas minhas palavras ser o teu nome
Para embarcar o meu foguete no teu universo.
Quis nas minhas palavras ser o teu nome,
Mas o que consegui foi só você.
Você é minha palavra, é o rio em que me afogo
Que afaga a minha chaga, é no deserto a água que imploro.
Quis que o teu nome fosse minha palavra
E que tua boca fosse meu beijo.
Queria ser alvo se você o dardo,
A carniça se você a hiena.
Eu repleto de moscas quando surge a gargalhada louca
Que devora os meus restos, podres, indigestos.
Quis nas minhas palavras desenhar as tuas formas,
Os teus trejeitos, as tuas manias.
Teus lábios, tuas bijuterias...
Tiraste do meu corpo os segredos mais sórdidos.
Por isto desconfio que tu sejas cigana
E que o teu lenço me cega o horizonte.
Por que o meu mudo é você. Cigana profana.
Me enfeitiça, me atiça que eu ponho os meus dentes de ouro na tua boca que escarra destinos.
Os pescadores
I
A imensidão cinza, repleta da alma impura
Carrega na rede o gládio, a arma da brancura.
Armada na água a rede, essa água que não mata a sede.
O corpo então sede a fome
E afoga a alma do homem.
No mar de águas impunes
Sinto o doce sabor do azedume.
Do vazio que enche o estomago
Na insônia das águas me afogo.
II
Eis aqui a rede, que se chama esperança.
Eu e meus companheiros jogamos a rede no mar,E atentos observamos a esperança se afogar.
A imensidão cinza, repleta da alma impura
Carrega na rede o gládio, a arma da brancura.
Armada na água a rede, essa água que não mata a sede.
O corpo então sede a fome
E afoga a alma do homem.
No mar de águas impunes
Sinto o doce sabor do azedume.
Do vazio que enche o estomago
Na insônia das águas me afogo.
II
Eis aqui a rede, que se chama esperança.
Eu e meus companheiros jogamos a rede no mar,E atentos observamos a esperança se afogar.
segunda-feira, 8 de outubro de 2007
Cavaleiro alado.
Eu voei como o eco da melodia mais infame,
Mas minhas frágeis asas de morcego cederam.
E fez-se a poeira! Cai como um raio sobre a tua despedaçada casa.
Quis demais, quis um reino só meu.
E tive as asas amputadas por alguém que sonhei ser,
Só sobrevoei a guerra e vi os despedaçados implorando por misericórdia,
Assim me fiz profano rei, que caminha sobre o as brasas incandescentes.
Desde meu ultimo vôo não sei mais o que é liberdade.
(Minha ascensão frágil confundiu-se com o doce legado de um palhaço triste,
Minha queda foi o único sorriso.)
Ergueste a espada e travaste a árdua batalha,
Lento, quando firmei o gládio cravaste em meu peito
Como outro teve as mãos cravadas.
Dormirei tranqüilo, pois apesar da derrota
Honrei a espada negra.
Cave uma cova onde caibam minhas asas
E limpe o meu sangue de tua espada.
Me enterre ao som das notas cínicas.
Mas minhas frágeis asas de morcego cederam.
E fez-se a poeira! Cai como um raio sobre a tua despedaçada casa.
Quis demais, quis um reino só meu.
E tive as asas amputadas por alguém que sonhei ser,
Só sobrevoei a guerra e vi os despedaçados implorando por misericórdia,
Assim me fiz profano rei, que caminha sobre o as brasas incandescentes.
Desde meu ultimo vôo não sei mais o que é liberdade.
(Minha ascensão frágil confundiu-se com o doce legado de um palhaço triste,
Minha queda foi o único sorriso.)
Ergueste a espada e travaste a árdua batalha,
Lento, quando firmei o gládio cravaste em meu peito
Como outro teve as mãos cravadas.
Dormirei tranqüilo, pois apesar da derrota
Honrei a espada negra.
Cave uma cova onde caibam minhas asas
E limpe o meu sangue de tua espada.
Me enterre ao som das notas cínicas.
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