domingo, 17 de fevereiro de 2008

Mentiras sangradas

I


Novamente preso na garganta da víbora
Com o peito vazio de um pobre humano vil.
Engasgado, desafinando a sinfonia,
Agora, sou apenas um pigarro,
De hálito raro, esquálido, um tumor maligno.
Oh víbora insensata, rasgue com tuas presas o rosto desta magnólia.
A flor inexata, de casca simbólica, silábica, rápida.
Quem dera se minha agonia fosse magnólia,
Quem dera se tu fosses à voz maligna do éden.
Expulse-me de tua garganta víbora, expulse-me do éden,
E das mentiras contadas por Ele.

II

Vi que a água transbordava e varria os famintos,
As víboras enroladas em arvores chovendo em nossas cabeças,
Envenenando-nos, esverdeando nossas peles.
A esperança era apenas um grão de areia no deserto,
Estava perdida, opaca em meio a tantas angustias.
E o espelho perguntava-me:
─ E então, sagrou-se campeão?
─ Nããão!!! Eu respondia.
─ Nããão!!! Das entranhas acesas saía.
Uma guilhotina cortava meus dedos a cada resposta,
Uma guilhotina afiada e rouca, deixava a minha carne exposta
E mudas as cordas do meu violoncelo.
Fui levado pelas águas, envenenado pelas cobras,
Esverdeado, desperançado e perdido
Como um grão de areia no deserto.

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