A cada passo que eu dava, sentia meu corpo sendo empurrado cada vez mais para dentro da casa. Na verdade era só uma casa mesmo, que tinha as suas histórias e seus gritos abafados pelo concreto. Suas paredes firmes pintadas de gelo com marcas de mãos deixavam o ambiente triste. Eu conseguia ser mais triste do que aquelas paredes.
Quando entrei para o quarto da casa, que ficava no final de um longo corredor cheio de portas, senti que algo estava tentando me sufocar. Aquela asfixia me tornava cada vez menor, meu corpo encolhia-se de acordo com a pressão que a casa fazia sobre mim. Até o jardim me sufocava, e a bromélia que estava pendurada no quintal gargalhava da minha aflição. O vaso da orquídea, que não havia nenhuma orquídea, retorcia-se como quem procura dizer algo, mas eu nada escutava.
Um cheiro podre invadiu o ambiente, minha cabeça perguntava aos meus olhos de onde é que vinha aquele cheiro. Meus olhos se calavam por medo.
A casa vinha em silêncio, pouco a pouco invadindo meu corpo, enquanto eu invadia as entranhas da casa. O cheiro podre como o de um animal morto na beira da estrada, de tripas despedaçadas pelo asfalto e urubus rodeando, se tornava a cada vez mais forte. A casa se apoderava de mim e eu tentava me livrar dela inutilmente. Quando dei por mim estava na rua caminhando rumo a fábrica onde trabalhava.
No outro dia eu voltei a casa, não por um desejo próprio, mas por uma necessidade de estar ali. Dessa vez fui acompanhado do corretor que estava cuidando da venda. Ele era gordo e vestia um velho terno desbotado, uma gravata vermelha e um sapato mal engraxado. A cada dois passos que dava, levava a mão à testa para limpar o suor que escorria de seu rosto redondo e vermelho.
Eu estava aturdido com a casa, com as suas paredes manchadas, e principalmente o seu vazio. O vazio era o que mais me atraia. Já me imaginava dono daquele vazio, não queria nenhum móvel na casa. Eu sonhava com a casa e o seu vazio imenso e pesado...
As portas eram sólidas e feias, de aço, com três trancas cada uma. Aquilo me encantava, me invadia, me tornava cada vez menor. Os cômodos eram grandes e suas paredes pereciam não ter mais fim, era de uma altura que me atordoava. Então eu evitava olhar para o teto.
No terceiro dia pedi dinheiro a um agiota e corri ao corretor da casa para fechar o negócio, mas quando cheguei ao endereço que ele havia me informado não encontrei nada. Era um terreno escuro e vazio no final de uma grande ladeira. No fundo do terreno, por trás do mato alto, havia uma iluminação precária, tanto que eu nem notei à primeira vista. Resolvi verificar o que era aquilo.
Fui caminhando em passos tímidos matagal à dentro, pensando na casa e em como eu necessitava dela. Quando havia caminhado apenas alguns passos me dei conta que a luz vinha de uma casinhola de madeira. A casinhola tinha um metro e meio de altura, e as gretas da madeiras deixavam vazar a luz.
Fui me aproximando da casinhola e bati palmas verificando se havia alguém ali. O corretor saiu da casinha muito assustado pela minha visita, ele estava vestindo apenas uma camiseta regata e uma bermuda. Olhou-me com o rosto nada receptivo e disse:
─ O que quer agora?
─ Quero fechar o negócio da casa que vimos ontem.
Sua feição fechada se abriu em um sorriso de canto. Ele caminhou na minha direção e me abraçou dizendo que eu havia feito uma boa escolha.
Entramos em seu escritório e ali decidimos tudo, paguei à vista o valor combinado e saí com a escritura da casa nas mãos. Agora a casa era minha, a casa tão desejada e venerada por cada poro de meu corpo, por cada entranha da minha alma. Era minha a casa e sua frieza eterna.
A sensação de ter aquela casa era única. Uma casa solitária. Formaríamos um par, um par sólido e solitário. Eu em minha paixão por ela e ela em sua frieza vazia. A única coisa que eu levei para a casa foi uma cortina chinesa que ganhara de minha mãe quando fui morar sozinho. Logo que entrei na casa preguei a cortina na janela da frente para evitar o sol da manhã.
Agora eu me sentia completo. A casa seria o par perfeito para os meus sonhos sórdidos. Suas paredes acinzentadas, seus tetos brancos encardidos, sua cozinha repleta de gordura por todos os cantos, e seus quartos cheirando mofado atiçavam algo nunca descoberto por mim.
Caminhei por aquela casa vazia, atravessando com olhar cada suspiro daquelas paredes frias. Ao tocar os cantos solitários da casa eu sentia os gritos de ódio, os pecados cometidos, as lágrimas abafadas entre suspiros e angústias. Quando consegui ver a dor que aquela casa guardava senti frio, um frio que tirava de mim toda aquela paixão doentia. Naquele momento tudo era dor.
O tempo foi passando e eu fui aos poucos deixando de acordar para trabalhar. A casa me consumia, eu era a casa. Queria ser um lar, e não uma casa vazia com apenas uma cortina chinesa. Todas aquelas portas batidas após as brigas, me assustavam. Roubavam o meu ar. Eu já não comia, estava pálido. Não via o sol da manhã, nem as estrelas. Só tinha olhos para as paredes geladas e sujas.
Agora estou me escondendo do agiota que emprestou o dinheiro da compra. Camuflado naquilo que sobrou de mim no porão da casa, rodeado por cadáveres dos sonhos que tive um dia, até que os homens me encontrem, me matem e me tirem da casa. Talvez o grito que eu der quando a bala atravessar a minha carne seja mais um grito abafado pelas paredes pintadas de gelo. Talvez a casa me transforme em nada, talvez a casa seja o melhor de mim ou talvez eu não leve comigo a cortina chinesa.
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