sábado, 15 de março de 2008

Dentro do poço


I- Nos teus olhos

Eu estava sentado no banco da praça, dentro da noite. Meu relógio já apontava duas horas da madrugada. Não estava com sono, não era isso, era apenas uma vontade de estar só. Uma vontade de estar na noite, ou melhor, dentro da noite. A única coisa que eu queria naquele momento era ficar esperando a grande estrela da manhã surgir para clarear o céu, porque o sol seca a água do poço em que estou me afogando neste momento.
Em um instante de glória e decadência Beethoven surge no assobio de um sujo mendigo. Mas agora o triste piano era apenas a música do caminhão de gás, aliás, a musica chata do caminhão de gás assoprada em notas desafinadas da boca já quase sem dentes. Uma boca cheia de ausência.
Os meus olhos sentiam cada estrela, e cada uma com sua preciosidade, seu próprio brilho, seu próprio amor... Cada estrela é um diamante que ama no céu de teias eretas para demonstrar um altruísmo singelo com a grande mãe lua. O céu, precioso, que não foi o homem quem fez, mas foi o homem quem o sentiu com os olhos, com boca muda, com palavras como estas... Pairava sobre minha cabeça enquanto eu tocava as paredes do poço. O lodo das paredes penetrava na ponta de meus dedos, entre a unha e a carne. Eu estava entorpecido, dentro do poço... Dentro da noite, me afogando no poço. Veloz.... Eu era à noite, o Beethoven, o caminhão de gás e a lua diamante que um dia eu guardei nos teus olhos.


II-No meio, ausência

No meio, no espaço que há entre meus lábios não há nada. O puro e límpido vazio ovula em minha boca, e eu nada faço, nada quero. Sentia-me um pouco pesado, parecia pressentir alguma coisa quando de repente sinto alguém me apunhalando..Eu até me esquivaria se esse alguém não tivesse me apunhalado pelas costas.
O punhal era pesado, me consumia cada vez mais e o sangue escorria por minhas costas transformando-a em um mar vermelho. Sinto vertigens e quando acordo, estou me afogando novamente na água do poço. O sangue avermelhava a água, esquentava o punhal, deixava o meu corpo e buscava outros caminhos. Misturava-se com o lodo, e com tudo que estava no poço naquela noite sem fim.
A música que o mendigo insistia em repetir me trazia uma angustia maior do que a que eu sentiria normalmente. Eu caminhava por cenários que pareciam perfeitos para filmes pornográficos, eu já não respirava bem. O punhal havia atingido meu pulmão esquerdo, o punhal se banhava em meu sangue, entranhado em minha carne.
Eu estava dentro da noite, me afogando na poça de sangue, veloz...
Seria mesmo um desejo meu ser apunhalado pelas costas, sem poder sequer me defender?
O que eu censurei em minha boca além de cada grito abafado pelo medo? E o que eu guardei de tudo isso? Será mesmo só a ausência do sangue que foi derramado pelo punhal? O que Beethoven tem a ver com a minha dor, coma minha dificuldade de respirar? É melhor acender um cigarro.
São dias como domingo em que você pede ao tempo que passe um pouco mais devagar. Esse domingo é só mais um domingo verde, verde e vermelho. E o verde contamina a minha pele, invade os meus poros... Qual é mesmo a cor do punhal? Como irei saber se ele está apunhalado em minhas costas. “Agora sua cor se confunde com o vermelho de meu sangue. “Então é vermelho, e o verde vem da pele mesmo”.
Quando acendo o cigarro, eu sei quem é a fumaça, mas a fumaça não sabe quem eu sou. A fumaça não sabe nada que não seja dar prazer para quem fuma.
Eu sou o anti-modelo, aquilo que ninguém deveria ser, a cólera em forma humana. O pulmão preenchido de fumaça e cinza me completa, solto a fumaça e a vejo sumir no ar. A fumaça e o seu incontável prazer. Logo esta fumaça cicatrizará a ferida, mas o punhal fará parte de mim para sempre, fui eu quem o invadiu, fui eu quem se apropriou de sua afiada e imunda lâmina.
Quando vejo que no meio de tudo há sempre ausência, me tranco nos confins da alma sanguinária. E penso comigo mesmo: “Logo eu, que fui abortado pelo céu da boca, eu que fui um mudo no mundo, sem pai ou mãe”... Penso e desisto como sempre. Acendo outro cigarro e me afogo no seu mar de fumaça preta.

III- As asas

A última tragada já não fazia tanto sentido, eu já nem sentia o efeito da nicotina. O mendigo que assobiava fraco já se foi, mas o Beethoven não sai de minha cabeça. Vejo um cachorro faminto revirando o lixo, e um garoto faminto disputando com o cachorro a melhor parte do lixo. Sinto medo.
Perco-me em pensamentos, são pensamentos soltos, desconexos, eu não os entendo. “Acho que devo parar de beber”. No meio destes pensamentos um me chama a atenção, me chama a atenção porque são palavras do poeta. Palavras que se confundem com a minha natureza, e uma voz grave ressoa em minha cabeça: “Quantas igrejas tem o céu?”
Eu não sei responder e me calo.
Consigo enxergar o garoto que disputa o lixo daqui alguns anos, e faço sua imagem neste mesmo local, assaltando alguma loja, batendo carteira... Sinto medo novamente.
Eu lembro que me fez muita falta uma mãe, alguém que me amasse mais do que a si mesmo. Eu nunca consegui amar a ninguém, nem a mim mesmo. Talvez seja por isso que fui apunhalado pelas costas pela segunda vez, agora do lado direito de minhas costas. Será este o mesmo veneno, por que não o sinto? Porque eu não consigo esquecê-lo? Meu corpo frágil já nem sangra, com isso eu percebo que foi Deus quem me apunhalou.
─ Por que fizeste isso comigo, Deus?
Eu grito tentando fazer com que ele me responda. Mas escuto apenas o eco de minhas palavras ressoando pela praça, dentro da noite, tocando as estrelas como uma mãe toca seu filho pela primeira vez.
Sinto uma dor imensa, começo a me contorcer no frio chão da praça, a noite observa a minha dança como eu observei o garoto disputando o lixo com um cachorro. Meus sentimentos se confundem, a dor parece me tornar mais forte. Sinto os dedos de Deus tocando os meus lábios. O pai tentando seduzir o seu filho, “mas não o amo...”, eu pensava enquanto sentia sua mão usurpadora tocando minha face. Logo após me tocar Ele voltou para o seu trono. Eu não vi a sua face, vi apenas seu sorriso branco reluzindo sobre meus olhos.
Quando acordei havia um enorme par de asas em minhas costas, então saí voando vagarosamente do poço olhando para o horizonte como se não houvesse explicação alguma.

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