domingo, 23 de março de 2008

Réquiem para os órgãos de um corpo imundo.


Da primeira vez foi tudo muito estranho, eu estava um pouco triste porque os meus olhos acabavam de cair. É uma história um pouco agonizante e eu não gosto de contá-la, mas agora que já comecei... Talvez o medo de contar essa história fosse uma vontade implícita no mais profundo dos meus sentimentos de espírito, na verdade uma necessidade íntima que se encontrava guardada em mim desde o dia em que isso aconteceu. É estranho não ver nada, e também é estranho não ter nada no lugar em que alguns segundos antes habitavam dois grandes olhos. Sei que este era um réquiem para um órgão que já cansado de sofrer abandona um corpo imundo, “estes olhos cansaram-se de habitar esta pocilga!”, penso em minha escuridão.
Eu não vi, mas imagino que foram uns ratos que moram no forno que comeram meus olhos. Eu escutei quando um deles levou um de meus olhos para dentro do forno, escutei quando seus dentes estouraram a camada fina que protegia a minha íris e sua língua lambendo o líquido que escorreu pelo chão da casa.
Passado alguns dias quando eu havia me acostumado a viver sem meus olhos, outra parte abandonou este corpo que vos fala. Agora quem partia para sempre eram minhas mãos. Minhas calmas e magras mãos, as falanges, as unhas, os pelos ralos de cada dedo. Ah, o dedos... Esses sim farão uma tremenda falta. Agora eu não podia fazer mais nada que não fosse deitar e esperar a morte. Sem olhos, sem mãos estou fadado a não sentir nada que não seja o cheiro doce do perfume da única mulher que amei, se ao menos ela estivesse aqui...
Vou para a cama já desiludido, eu assumo, entrego os pontos agora.
─ Entrego os pontos!
Gritei esperando que alguém me ouvisse. “Entrego tudo o que é meu, tudo que eu tenho de mais valioso”. E engasgo com minha própria língua, agora foi ela quem se soltou do resto do corpo, e o resto não é nada. Eu sinto uma angustia profunda, uma vergonha imensa. Até que escuto passos dentro do quarto. Não falo nada, e mesmo se quisesse não tenho mais língua...
Esse alguém se aproxima, eu escuto seus passos... Eu não sei quem ele é, mas sinto que ele me conhece como ninguém. Ele me observa por alguns instantes. Escuto sua respiração como se fosse uma triste sinfonia, a mais triste das sinfonias, a minha única esperança. Temo o que ele pode fazer comigo, temo apenas por um instante, pois o que poderia ser pior do que isto que já me aconteceu?
Escuto sua respiração se aproximando do meu ouvido direito, ele está se abaixando. O medo impede que eu me mova. E ao chegar bem próximo de minha orelha ele respira duas vezes como quem procura fôlego e diz bem baixinho:
─ Posso lhe dar olhos de vidro, posso lhe dar mãos que trabalhem e uma língua que quase fale, desde que você me dê seu coração. O que você acha?
Respondo positivamente balançando a cabeça, e em um instante eu estava acordado, enxergando, com as mãos coladas nos punhos e cantando uma velha canção. Até que um vazio imenso se apossou de meu peito, então corri para o banheiro pegar o tarja-preta.

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