Havia uma esperança, esperança de... Alguma esperança. Mas ele não voltava, ele nunca voltaria.
Ela saiu triste e sozinha para comprar cigarro. E uma página rasgada de um livro que ela não sabia qual era voou e tocou seus pés. Ela se abaixou e tomou por sua a página pensando que aquelas palavras iriam amenizar a sua tristeza, mas na página só havia navalhas:
“Sentir dor
O que guardas entre as pernas?
Diga-me amiga aflita, O que não cabe em seu peito,
mas que transborda o teu leito, teu leite do amor de mãe?
O que guardas entre as pernas?
A vergonha de ser puta, a memória dissoluta dos amantes que já teve...
Sei que guardas entre esta porra um “Deus não deixe que eu morra,
Sem provar o doce das amoras.”
Guarde triste e faminta, aquela nota de trinta que ganhou por teu trabalho,
Guarde a cabeça erguida a muito já perdida por vergonha, por escárnio...
Por medo de bem cedo se doar a um qualquer que por posse tiver alguns trocados.
O que guardas entre as pernas é só dor, humilhações e nada mais.
Quando estais nas esquinas que os faróis te iluminas, que teu corpo negro brilha
Sob a luz dos automóveis, sob a luz das cigarrilhas que após o gozo brilhas,
Teus olhos ficam opacos por não ter nada além de dor, no estômago e no peito.
O que guardas entre as pernas são gozos da dramaturgia, por obrigação e não por alegria
“E abaixo teta esquerda guarda toda a dor por não mais sentir nada que não seja dor.”
Ela leu e chorou, porque aquelas palavras rasgaram o seu peito, porque aquelas navalhas eram muito afiadas.
Era apenas medo, medo do desejo... Engasgou com o sangue que invadira a sua garganta.
sexta-feira, 18 de abril de 2008
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