I
Sobre a neve do norte, note que ela está derretida
E a vida é a mesma de sempre, desde que eu sou gente,
Desde que o mundo é mundo
Aquele que constrói é mudo. Eu sou mudo.
Encaro o sol, precioso, estonteante,
Antes do horizonte de barracos e tristeza,
Porque depois, acaba toda a beleza
E o que resta é pobreza marcada na cara de quem não come.
II
Quem não come. Quem não come?
Quem não come tem navalha,
Quem não come mata, mata por matar,
Não só para comer. Quem não come tem ódio,
Ódio de não comer, ódio de quem come,
Como eu, como você, nós comemos
Eu sei disso, você que me lê come.
Porque quem não come não consegue aprender a ler.
E quem não come tem ódio
De mim e de você. E de todos que tem uma casa
E algo para comer.
Quem não come tem medo
De morrer por não comer,
Quem não come não acha graça
Em nada, nem em não ter o que comer.
Dói pro estômago vazio dar risada da piada,
Por isso que quem não come não acha graça em nada.
III
É que eu não sei cantar a flor
E nem as glórias do dia
Nem as luas dos namorados
Nem de longe a alegria
Eu não sei cantar primaveras
Eu não sei fazer elegias
De esperança em novas eras
É outra a minha cantoria
É que eu não sei cantar o amor
Da família despedaçada
Porque o pai não tem emprego
Porque a mãe é oprimida
Porque o filho não tem sossego
Nem esperança alguma da vida
É que eu não sei cantar belezas
Porque eu só vejo tristeza
Fome e covardia.
IV
No inverno,
O inferno frio,
De quem na rua dorme.
Mas quem dorme na noite fria?
Por isso que aqueles meninos
Amam tanto a luz do dia.
No inverno,
O inferno frio,
A fome aumenta,
Atormenta o estômago
Vazio.
O inverno
Não é complacente,
Na rua deveras o sente.
O inverno é o inferno da gente!
E agente não quer sentir fome,
Agente não quer sentir frio,
Agente não quer sentir
O estômago da gente vazio.
Agente cansou de ser bobo,
Agente tá querendo lutar,
Agente que o pedaço do bolo
E agente vai pegar!
Agente vai fazer a justiça
Pra gente fome não passar.
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