Esse dia cinza, cinza de gota em gota,
Dia que a chuva alimenta, que atormenta.
As gotas suaves, leves, tocam minha pele imunda.
Imundo, sem saber quão tolo são os solitários,
Eu, involuntário, sangro mesmo sem ter sangue.
Vem exorcizar a minha casa,
Tirar dela esse vazio, essa solidão. Como se adiantasse...
Abençoada seja a vossa tristeza,
Pois só dela nasce, de gota em gota, a alegria, a beleza.
O asfalto molhado da rua parece-se com campos orvalhados,
Campos orvalhados negros. Uma imensidão,
Plantação de rosas negras regadas de orvalho,
Espesso, verde, quase cinza.
A tristeza é o barulho da enxurrada,
Calmo e turvo caminhando pelos ouvidos; de um lado para o outro.
Os pés gelados dentro dum tênis de pano
É quase tudo o que tenho, e demais não me importa.
Pois é, é mais um dia só, e só.
Um dia polifônico, manso como um filhote panda.
A garoa corta o rosto, serena, fria...
Que o vento traz a nuvem cinza
Para escurecer o céu. Como a fumaça do meu cigarro,
E a alegria do palhaço.
sexta-feira, 2 de maio de 2008
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