domingo, 20 de julho de 2008

Três do corpo, três do álcool e quatro para sentir a noite

I

Ouve aqui,
no fundo do meu peito passional

Vê se nele cabe ainda alguma magoa,
Mesmo que pequena ela seja

Os órfãos brincam, branqueiam e ficam ricos
Tomam baque e morrem afogados no próprio vômito

Houve aqui,
um tempo que em meu leito madrigal

Lançavam-se como brasas sobre a água
Mesmo se morenas elas sejam

Os órgãos inflam, inflamam e apodrecem
De conhaque e morrem os fígados pelo próprio álcool.

II

Aquele anjo branco deslizava
Num mictório cinza do banheiro da central

Vivia para ver o pau de quem mijava
Queria por na boca todos os paus do mundo


Quando criança sonhava ser condor
Cresceu e deu
Pra quem quisesse comer
Achava que foder era preciso
Pra quem quisesse viver

Às vezes ficava dias sem sair de casa
Quando voltava dizia:
Meu cú andava meio desconfiado.

III

A piedade não é coisa que se preze
Mesmo assim eu peço piedade ao álcool
No álcool me reconheço
É como se fosse o fundo das estrelas
O fundo do copo de vinho vazio
Vem, e entorna na boca essa ultima gota de piedade.
IV

Os pêlos crescem pela ponta dos dedos
Os dedos tocam outra vez
Com preciosidade a carne fresca
E ela dança como se a ultima vez
Sobre a pele suor, não lágrimas
Há quem confunda e a jogue a rês
Com vivacidade imunda
o dedo afunda
E ela goza como se a ultima vez

V


Era apenas para um chá que te convidaste, querida. Nada mais queria, a não ser a tua companhia. E que aquilo tudo me foste feito de sonho ou pesadelo, digo que me deleito quando me lembro dos teus lábios roxos de vinho tocando a carne exposta de meu pescoço salgado. Nem que não fossemos feitos de carne conseguiríamos resistir um ao outro naquela noite posta sobre a cama, o meu corpo a tua ceia e o teu a minha sobremesa. Era lasciva, e era vermelha a cor da tua segunda boca, e como ela beijava, como ela beijava o meu beija-flor. E como ele beijava, como ele beijava a tua papoula em chamas.

Era apenas um chá, e se tornara uma orgia sem tamanho. Querida, queria pedir-te que convide uma rapariga quando aqui voltar a ter. Sempre foi um sonho meu ter na cama três, pois se não, porque eu teria a pica e a língua para prazer dar? Se faltar a alguma pica, uso a língua também e tu sabes mais que todas que eu sei lhe usar bem. Se cansardes de minha língua te arrebento o cu com a mão, talvez assim você se lembre da adolescência e de como isto era bom. E se me achar pequeno troco ele de buraco, e te destruo o intestino. Será assim a única forma de te fazer mulher?

Peço que me mande resposta. Sem mais. Adeus.


VI

Diga que não é difícil
entender a perplexidade de agosto
ou não escutar o silêncio dos passos
na manhã de um outono meio inacabado


como se não fosse cinza o calor de nossos lábios
quando se tocam
dentro dos desejos
resguardados
nos beijos


na auto-impiedade intratável
de calçar as luvas e
fingirnãoserlouco
pouco a pouco transpassado na dissonância
do inverno tropical
do meu país latino
subdesenvolvido
católico
caótico e
veladamente preconceituoso


VII

Para ler ao som de
Ceora de Lee Morgan


Era Lee Morgan quem tocava os trompetes
E eu quem bebia outra dose tequila
E esses pianos?
Hancock, aposto!
Posto aquilo ela preferiu Cinzano
E nós tomamos,
E nos tornamos alcoólicos
Havia, sim, licor, gim
“Vem que tem jazz à vontade”
E nós dançamos Ceora,
Realmente,
é Hancock quem toca
“escuta”, ela disse.
E eu simplesmente sorri
E servi mais um Cinzano.

VIII

Anseio escrever no teu corpo
De volúpia
No meio de uma transa passional
Dos tempos das noites em claro
Sem vômito, é claro
Depois da apoteose adolescente
Que zelamos entre silêncios desgostosos


No brilho da estrela refletida no dente
Teu corpo claro e
Sobretudo puro,
Teu olhar escuro
Púrpura de crepúsculo

Nem tuas noites nem as minhas
Serão as mesmas
Após
Escrever no teu corpo




A minha arcada dentária
Sedentária e
Sobretudo impura



IX

E ela dançava,
Seus olhos eram como duas jabuticabas frescas
Sobre a mesa
num domingo de manhã
e ela sorria,
como se ainda acreditasse que as estrelas
não brilhavam tanto quando estava naqueles dias
ou como se meu sexo não estivesse submerso
em algum de seus buracos

e a luz se espalhava
como seus cabelos loiros
e os metais no final da musica diziam
que esta noite não teria mais fim
e que meus sapatos gastos deslizariam
sobre o mármore
que é teu corpo

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