De repente Ofélia se ofende, hoje passamos da conta. Acho que essa porra vai acabar com a gente. Ofélia sai da minha frente e vai para o quarto. Acendo um cigarro e quando resolvo ir ao quarto para resolver, vejo Ofélia saindo com “aquele vestido”. A merda do vestido roxo que eu odeio que ela use. Ela me olha de cima, pega o maço de cigarro e sai. Olho aquelas coxas brancas da Ofélia, aquelas coxas, o meu troféu, saindo assim, sem mim. Assim sem mim, tão descoberta. Se continuar assim outro homem a descobre.
Três minutos depois, cigarro exterminado, apagado no cinzeiro, eu na frente do espelho dando um jeito no cabelo. Saio correndo pelo corredor atrás da Ofélia. Corro pelas ruas até que a encontro atravessando a praça, com ar da graça de moça descasada.
Olho de longe e meus olhos vêm Ofélia subindo a escada da gafieira. Nunca pensei que ela pudesse fazer isso comigo, logo aí na gafieira. Ela sabe que eu não danço. Pago para um homem magro, meio calvo, que fica na porta. Subo e a cada degrau sobe mais o meu medo. Mas do que posso ter medo? Da Ofélia. Ela pode estar dançando com um velho barrigudo, ou com um daqueles professores de dança de salão. Ah, Ofélia, se eu te pego nem sei o que faço, acho até que te passo o aço se você tiver com outro qualquer. O máximo que pode fazer é dançar com outra mulher.
Lá em cima, no primeiro passo dentro do salão uma senhora me pede uma dança. Digo que não. Procuro Ofélia. Outra velha. Não, respondo, não danço. Vejo Ofélia num canto, cigarro na boca, copo de Martini bianco na mão. Porra, Ofélia, bianco não. Fui eu quem te ensinou a tomar isto. Vou ao bar:
─ Tem algum vinho licoroso pra eu tomar?
─ Branco ou tinto?
─ Branco.
Às vezes eu sinto que é melhor parar. Parar com essa merda de recomeçar, agente tá se ferindo muito. É melhor eu mudar de assunto se não vou enlouquecer, o melhor a fazer é beber para esquecer.
Pego o vinho, viro. Seus olhos me penetram como um tiro. Ela caminha pelo salão, bem devagar. Um daqueles velhos barrigudos a chama para dançar. Ela aceita. Que afronta. Que merda, Ofélia. Acho que o bianco a fez ficar tonta. O velho fala alguma coisa para ela. Ela responde sim com a cabeça. Ele arrisca um beijo, ela aceita. O copo de licoroso estoura na nuca do velho filho da puta. Pena que o velho era o presidente da gafieira. Todos os seguranças de uma só vez. Eu só vejo os chutes e ninguém que me ajude. Nem a Ofélia, aquela cadela. Ficou dando risada da minha cara ensangüentada.
Na manhã seguinte eu volto para casa, entro com cara de meio puto-meio humilhado. Ela com a vassoura na mão. Varre a roupa suja pra debaixo de tapete. Pede umas desculpas tão sinceras, tão sinceras até que eu aceite. Se deita nua e me chama em chamas na cama pra matara Sade do seu suor salgado.
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