sábado, 27 de setembro de 2008

A evocação da Deusa

O copo de vinho, as cuecas pelo chão, a pia cheia de louça, o maçarão que aos poucos estraga, e um disco do Schumann na vitrola. A ponta do baseado no cinzeiro, muitas pontas de cigarro, os livros e as cartas mal escritas pelo chão, pelo calor da paixão... Tudo isso diz que ela não está.
Pedaço de solidão no cigarro aceso. Outra garrafa de vinho e alguns passos para virar o disco, “é melhor colocar aquele Mozart que ela tanto gostava”. Após alguns segundos a sinfonia invade o escuro do porão, outro pedaço de solidão... Um suspiro. A evocação da deusa. Silêncio. Dizendo que ela não está, e que não vai voltar.
Outro copo de vinho. Alguns passos até a estante e em um instante o livro do Gullar aberto na mão. Bate os olhos, e com aquela letra dela, a anotação: “é lindo”, ao lado do poema Madrugada. Tira o pigarro da garganta e começa a recitar:
Do fundo do meu quarto, do fundo
Do meu corpo
Clandestino... (as lágrimas já não o deixam ler)
Fecha o livro e pega o cigarro. Lembra de como ela tragava o cigarro, de como ela sorria quando exagerava no vinho... Mas agora ele olhava ao redor e lembrava-se de como tudo aconteceu. Lembrava do telefone tocando e alguém dizendo:
─ Sérgio, é você?
─ Sim.
─ Aconteceu uma coisa horrível com a Antonieta...
Ele ainda sentia o gosto dela na boca, ainda via Antonieta entrar no quarto com seu ar de litorânea, reclamando do trabalho, pedindo que ele colocasse algum disco. “Pode ser algum jazz. Não, melhor colocar aquele Schumann do violoncelo”, foi esse o disco que escutaram no dia anterior de sua morte. Ele passou três dias escutando este disco, até que a musica se tornasse o ar e não fizesse mais sentido. Fosse como o nada, um nada que cerrava os punhos aos poucos.
Outro cigarro. Queria mesmo era incendiar a Deus, trazer de volta sua deusa. Tentou evocar Satã para um pacto, mas ele não veio. Isolou-se no porão então. Resolveu esperar a morte. Não foi ao velório, só ficou lá no porão, imóvel. Caminhava até a vitrola, trocava o disco e só. Esperar a morte bastava, no escuro calabouço do palácio em que por um tempo foi feliz com Antonieta. Agora não restava nada que não o vinho, o cigarro, e a coleção de discos que ela deixou. Restava agora aguardar, ou se transformar em um vampiro.

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