domingo, 4 de maio de 2008

Anêmico

I

Sobre a neve do norte, note que ela está derretida
E a vida é a mesma de sempre, desde que eu sou gente,
Desde que o mundo é mundo
Aquele que constrói é mudo. Eu sou mudo.
Encaro o sol, precioso, estonteante,
Antes do horizonte de barracos e tristeza,
Porque depois, acaba toda a beleza
E o que resta é pobreza marcada na cara de quem não come.


II

Quem não come. Quem não come?
Quem não come tem navalha,
Quem não come mata, mata por matar,
Não só para comer. Quem não come tem ódio,
Ódio de não comer, ódio de quem come,
Como eu, como você, nós comemos
Eu sei disso, você que me lê come.
Porque quem não come não consegue aprender a ler.
E quem não come tem ódio
De mim e de você. E de todos que tem uma casa
E algo para comer.
Quem não come tem medo
De morrer por não comer,
Quem não come não acha graça
Em nada, nem em não ter o que comer.
Dói pro estômago vazio dar risada da piada,
Por isso que quem não come não acha graça em nada.


III

É que eu não sei cantar a flor
E nem as glórias do dia
Nem as luas dos namorados
Nem de longe a alegria
Eu não sei cantar primaveras
Eu não sei fazer elegias
De esperança em novas eras
É outra a minha cantoria
É que eu não sei cantar o amor
Da família despedaçada
Porque o pai não tem emprego
Porque a mãe é oprimida
Porque o filho não tem sossego
Nem esperança alguma da vida
É que eu não sei cantar belezas
Porque eu só vejo tristeza
Fome e covardia.

IV

No inverno,
O inferno frio,
De quem na rua dorme.
Mas quem dorme na noite fria?
Por isso que aqueles meninos
Amam tanto a luz do dia.
No inverno,
O inferno frio,
A fome aumenta,
Atormenta o estômago
Vazio.
O inverno
Não é complacente,
Na rua deveras o sente.
O inverno é o inferno da gente!
E agente não quer sentir fome,
Agente não quer sentir frio,
Agente não quer sentir
O estômago da gente vazio.
Agente cansou de ser bobo,
Agente tá querendo lutar,
Agente que o pedaço do bolo
E agente vai pegar!
Agente vai fazer a justiça
Pra gente fome não passar.

sexta-feira, 2 de maio de 2008

E o vento traz de volta a garoa da noite passada.

Esse dia cinza, cinza de gota em gota,
Dia que a chuva alimenta, que atormenta.
As gotas suaves, leves, tocam minha pele imunda.
Imundo, sem saber quão tolo são os solitários,
Eu, involuntário, sangro mesmo sem ter sangue.
Vem exorcizar a minha casa,
Tirar dela esse vazio, essa solidão. Como se adiantasse...
Abençoada seja a vossa tristeza,
Pois só dela nasce, de gota em gota, a alegria, a beleza.
O asfalto molhado da rua parece-se com campos orvalhados,
Campos orvalhados negros. Uma imensidão,
Plantação de rosas negras regadas de orvalho,
Espesso, verde, quase cinza.
A tristeza é o barulho da enxurrada,
Calmo e turvo caminhando pelos ouvidos; de um lado para o outro.

Os pés gelados dentro dum tênis de pano
É quase tudo o que tenho, e demais não me importa.
Pois é, é mais um dia só, e só.
Um dia polifônico, manso como um filhote panda.
A garoa corta o rosto, serena, fria...
Que o vento traz a nuvem cinza
Para escurecer o céu. Como a fumaça do meu cigarro,
E a alegria do palhaço.

quinta-feira, 1 de maio de 2008

Essa noite

Por que a solidão insiste em ficar entre meus dentes?
E de dente em dente se encontra quase uma gota de solidão,
E de solidão em solidão se encontra um dente.
Eu, gelado como as tardes de julho,
Sorrio no espelho um sorriso amarelado como a lua.
Os pés pelo mundo, os pêlos cobrindo o rosto
De desgosto. Marcas da solidão.
Os pés, pêlos mudos, mundos de solidão.

Algum trocado

I
Eu não sufoquei em minha boca o teu beijo profano,
Mas deite-me sobre o chão gelado da madrugada
Para abortar o que sonhamos em um olhar fraterno.
E se caminho assim meio sem direção, faço de conta que tenho um caminho
Por seguir, por perseguir. Assim não me sinto tão culpado.
Sei que pareço frágil porque sangro, mas nunca me senti tão forte,
Já que agora caminhamos ombro a ombro.
E já não sorrio para as tuas caras,
Nem acho graça das tuas piadas,
Ou ao menos sinto vontade de te ver, pois
Como já disse, caminhamos ombro a ombro.
O mesmo vazio que sinto, sentes também.
Por isso sigo sozinho, abalado por minha infestação de caos.
Transcrevo-me em palavras de crepúsculo, e de escuridão,
A mesma que tens, aliás, a tua escuridão é maior que a minha
Já que o tempo não é teu amigo.
Me fascina essa tua dualidade, talvez ela até te ilumine em outros lugares,
Mas a meus olhos tenha certeza, a escuridão tomou conta da sua face
Assim que negou estender-me a mão.
Como já disse, agora caminhamos ombro a ombro.

II

Eu escrevi palavras sórdidas no desalento da minha descrença sobre a tua companhia, falso amigo,
E não desdigo o que está escrito!
E que elas sejam como cantos tristes de pássaros engaiolados,
Sejam céticas e selvagens como o inferno segundo Dante...
E que meu canto seja ódio e não lhe deixe dormir nem por um minuto, falso amigo.

III

De que te vale exterminar o meu apreço?

IV

É mesmo? Será que eu não sou uma ilha?
Talvez eu te deixe mais algum trocado.