domingo, 29 de junho de 2008
Paredes:
É o que nos impede de mostrar quem realmente somos.
Ou seja, se não houvesse paredes
Tudo seria arte.
II
As paredes incorporam os corpos
Guardam, sagram, limitam portos
Para os corpos fartos da formalidade
E forma de corpo, recatado, reprimido
Os corpos se rebelam,
Se sangram e selam
Uma libertinagem sem fim.
Incorporados por Baco os corpos opacos
Brilham a luz da lua,
Eu sei, mas sonho em não ter mais fim.
Diga que não é difícil
entender a perplexidade de agosto
ou não escutar o silêncio dos passos
na manhã de um outono meio inacabado
como se não fosse cinza o calor de nossos lábios
quando se tocam
dentro dos desejos
resguardados
nos beijos
na auto-impiedade intratável
de calçar as luvas e
fingirnãoserlouco
pouco a pouco transpassado na dissonância
do inverno tropical
do meu país latino
subdesenvolvido
católico
caótico e
veladamente preconceituoso
entender a perplexidade de agosto
ou não escutar o silêncio dos passos
na manhã de um outono meio inacabado
como se não fosse cinza o calor de nossos lábios
quando se tocam
dentro dos desejos
resguardados
nos beijos
na auto-impiedade intratável
de calçar as luvas e
fingirnãoserlouco
pouco a pouco transpassado na dissonância
do inverno tropical
do meu país latino
subdesenvolvido
católico
caótico e
veladamente preconceituoso
sábado, 14 de junho de 2008
Femme Fatale
Ela entrou no apartamento e ele estava na sacada, bebendo e fumando. Ele olhou para ela com cara de quem quer dizer alguma coisa, mas não disse nada. Só viu que ela estava com ma caixa a mão. Aquela caixa fez com que ele entrasse em pânico, aquela caixa significava que ela iria mesmo embora e não seria como da outras vezes em que brigaram. Nas outras vezes ela não levou suas coisas embora, apenas passo alguns dias na casa de alguma amiga e depois voltou para conversar, então tudo se resolvia. Ela voltava para o apartamento e ele parava de beber por algumas semanas.
Ele foi até o banheiro na verdade ele só queria ver o que ela estava fazendo no quarto, se estava realmente guardando as coisas para partir... E era verdade, ela estava realmente partindo desta vez, agora guardava as roupas na caixa, para ser mais exato, ela segura com muita angustia aquela camiseta do Tom Zé que ele havia dado para ela no primeiro aniversário de namoro.
─ O que você ta fazendo? Perguntou ele.
─ O que você acha?
Ele abaixou a cabeça e foi até a sala pegar um cigarro. Voltou até a porta do quarto e disse:
─ O meu cigarro acabou você tem aí? Era mentira, ele tinha um maço guardado no armário do banheiro.
─ Você tem cigarro. Só tá querendo puxar papo, mas desta vez não vai funcionar, não adianta...
─ Que merda, Márcia. Por que você ta fazendo isso comigo?
─ Fazendo o quê? Foi você quem quis que fosse assim.
─ Pô, Márcia, é de você que eu gosto, você sabe. Desde a faculdade agente tá junto. Fui eu quem te deu essa camiseta do Tom Zé.
─ Eu não agüento mais você, Roberto, já me encheu o saco essa sua merda de vida e essa sua mania de beber demais. E além do mais se você quiser eu te devolvo essa porra de camiseta.
─ Não precisa, ela é sua.
─ Você é um gordo bêbado, metido a garotão hippie dos anos setenta.
─ Se é por culpa da bebia, eu paro. Prometo.
─ Você é o jornalista mais bêbado de São Paulo, não adianta vir com esse papo que não cola mais. Você não tem mais jeito, Roberto.
Ele abaixou a cabeça e caminhou até a sala de estar. Ficou sentado no sofá esperando e esperando... Esperando que ela, por um milagre, mudasse de idéia. Acendeu um, dois, e no terceiro cigarro, resolveu ir até o quarto de novo para tentar, novamente, convencê-la a ficar.
─ Márcia, fica. Pelo menos essa noite.
─ Pra quê, Roberto? Pra você me convencer de que vai mudar e essas coisas? Eu já cansei, Roberto. Não agüento mais essa sua cara de merda quando acorda. Todo dia você acorda de ressaca porque passa a noite bebendo e escrevendo, aliás, esses contos que você escreve são todos ruins. Você é jornalista, e não escritor. Vê se cresce, Roberto.
─ Porra, Márcia, também num precisa falar assim.
─ Por que? Você é um bosta mesmo, você e aquele seu cavaleiro alado que você insiste em colocar naqueles seus contos de fantasia. É uma merda tudo aquilo que você escreve. Fantasia é coisa de europeu, Roberto. Aqui no Brasil o que pega é a realidade mesmo. Acorda, Roberto, por que você insiste em ser imbecil?
─ Tem muitas pessoas que gostam do que eu escrevo.
─ Quem?
─ Tem muitas, eu não vou lembrar de cabeça.
─ Fale uma, só uma pessoa que gosta do que você escreve.
─ O Pedro, por exemplo, ele sempre me elogia.
─ O Pedro é seu amigo, Roberto. Se ele não fosse, não elogiaria porra nenhuma, porque tudo que você escreve é muito ruim.
─ Lá vem você com a síndrome dos letrados. Todos os letrados se acham donos da verdade absoluta, mas não passam de professores frustrados.
─ Não fale assim da minha profissão, sou professora porque tenho um ideal.
─ É professora porque não sabe escrever, porque se soubesse seria E-S-C-R-I-T-O-R-A.
─ Não tem nada a ver uma coisa com a outra.
─ Tem sim. E além do mais eu escrevo muito no jornal, to quase conseguindo uma coluna de crônicas...
─ Desde que eu te conheci que você fala isso.
─ Agora é verdade, ta pra acontecer.
─ Desculpa ai, Bukowski de Pirassununga!
─ Odeio quando você fala isso.
Ele saiu caminhando com lágrimas nos olhos, foi até a sala, pegou uma dose de conhaque e acedeu mais um cigarro quando a fumaça iluminou a sua cabeça com uma idéia brilhante. Ele se levantou foi até o armário e pegou aquele disco do Velvet Underground e colocou aquela música que ela adora: “Femme Fatale”. Ela foi até a sala e o abraçou. Fazia dois meses que ela não fazia isso. Agora ele estava salvo.
─ Não acredito que você ainda lembra.
─ Pois é, eu posso não saber escrever, mas sei que você ainda adora a voz da Nico e as musicas do Lou Reed.
Ela colocou a cabeça no seu ombro e dançou até acabar a musica. Depois foi embora. Ele tentou impedir colocando a musica de novo, mas não deu certo. Ela foi mesmo assim, mas disse que nunca mais amaria ninguém como havia amado ele. Aquela musica, ela amava... Ela se sentia um Femme Fatale quando saiu do apartamento, e ele um little boy. Ela a Nico e ele um Lou Reed abandonado. Entre os dois ficou a certeza de nunca mais amar ninguém como haviam amado um ao outro. Depois que ela saiu, ele repetia baixinho: “she’s a femme fatale...”
segunda-feira, 2 de junho de 2008
Uns mortos.
Apenas os mortos sabem o que é felicidade,
Apenas os mortos amam de verdade...
Os mortos amam o limbo do caixão
E o fundo da terra, as raízes, os vermes.
Os mortos amam os vermes
E detestam os velhos costumes.
Os mortos deixam de ser matéria
Passam a ser passado.
Os mortos são feitos de lembranças
Das lágrimas de quem ficou.
Os mortos não choram, eles são felizes.
Os mortos transferem suas cicatrizes
Para aqueles que não sabem dizer não.
Os mortos não sentem solidão,
São gelados, cabeludos, são carne em decomposição.
Depois, os mortos são montes de ossos,
E o crânio do morto mais gentil
Provocará repulsa no assassino mais frio.
O crânio é símbolo macabro
E não importa de quem tenha sido.
O morto não quer respeito,
Ele já morreu,
O morto é muito mais feliz do que eu.
Os mortos estão aconchegados na terra
E eu ainda não encontrei o meu lugar.
Talvez o morto em mim
Queira, aos poucos, despertar.
Elegia à Kafka
Cansei desse quarto de hospedes,
Cansei de ficar enclausurado na manhã crepuscular
E no amanhecer que vem tecendo sua teia infernal.
Da minha casca e de minhas incansáveis pernas,
Guardo ódio. Descrevo o desapreço
Fazendo minha metamorfose e morro.
Morro porque é a única saída.
E diga a Ele que o nome do meu advogado é Franz Kafka!!!
E que não me envolva neste processo
De desejos incestuosos, de mortes sanguinolentas.
Cansei destes castelos abstratos,
Destas cartas desgostosas, de desalento, de nostalgia.
Uma madrugada, alguns dias,
Gritos surdos de desespero
Da alma imóvel do guerreiro
Que se transforma em inseto
Como se aquilo fosse a ultima saída.
Da mesma metamorfose, da morte que traz a vida.
Cansei de ficar enclausurado na manhã crepuscular
E no amanhecer que vem tecendo sua teia infernal.
Da minha casca e de minhas incansáveis pernas,
Guardo ódio. Descrevo o desapreço
Fazendo minha metamorfose e morro.
Morro porque é a única saída.
E diga a Ele que o nome do meu advogado é Franz Kafka!!!
E que não me envolva neste processo
De desejos incestuosos, de mortes sanguinolentas.
Cansei destes castelos abstratos,
Destas cartas desgostosas, de desalento, de nostalgia.
Uma madrugada, alguns dias,
Gritos surdos de desespero
Da alma imóvel do guerreiro
Que se transforma em inseto
Como se aquilo fosse a ultima saída.
Da mesma metamorfose, da morte que traz a vida.
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